Críticas à passagem de Hugo Silva a vereador independente no Fundão

Eleito do Chega desfilia-se. PS diz que “fica claro um acordo mais ou menos secreto”. CDU fala em obtenção “na secretaria” de uma maioria no executivo liderado pelo social-democrata Miguel Gavinhos

Está a ser alvo de críticas, por parte dos diversos partidos, a passagem a vereador independente no executivo da Câmara do Fundão do eleito pelo Chega, Hugo Silva. O autarca, que há cerca de quatro meses tinha levado o partido a estar pela primeira vez representado no executivo fundanense, confirmou esta semana que se desfiliou do Chega, mas que irá continuar no executivo como independente.

“Esta decisão foi formalmente comunicada às respetivas instâncias competentes”, esclareceu à Agência Lusa, reiterando que se trata de “uma decisão pessoal, que foi ponderada e tomada na sequência de um processo de reflexão sério e responsável”. Hugo Silva garante que ao longo do seu percurso colocou sempre “os interesses do concelho do Fundão e dos fundanenses acima de quaisquer lógicas partidárias”, assumindo que considera que “a defesa consistente e eficaz da população exige autonomia de pensamento e liberdade de ação”. O vereador garante que irá prosseguir “o compromisso cívico com total dedicação, trabalhando por um Fundão mais forte, mais competitivo e mais seguro”.

Esta tomada de posição tem sido alvo de críticas. Rui Pelejão, vereador do PS no executivo, considera que “fica agora claro o acordo mais ou menos secreto que vigora desde o início do mandato, em que o vereador do Chega entra mudo e sai calado (fez apenas três intervenções ao longo das oito sessões), viabilizando as principais medidas do executivo”. E lembra que o município passa agora a ter no poder um vereador que “usou a porta giratória do Chega, um partido anti-imigração e xenófobo, para chegar ao poder”.

O movimento “Comunidade com Força” manifesta, em comunicado, a sua “profunda preocupação” com os desenvolvimentos políticos recentes no município na sequência da desvinculação do vereador do Chega. O movimento sublinha que, no plano político, a alteração ocorrida “em tão curto espaço de tempo suscita questões sobre a continuidade da representação política e sobre os impactos na confiança dos eleitores. Quem foi sufragado sob um determinado projeto político não pode, volvido tão curto espaço de tempo, alterar o seu enquadramento sem que tal levante dúvidas legítimas quanto ao respeito pelo mandato conferido.” E recorda que nas primeiras deliberações do mandato “o vereador optou pela abstenção, viabilizando a delegação de competências da câmara municipal no presidente. Uma decisão que transferiu plenos poderes anteriormente sujeitos a deliberação colegial e reduziu de forma crítica o espaço de decisão do executivo. Uma opção que teve consequências políticas objetivas e não pode ser dissociada do atual contexto e das “promoções” que se avizinham na vereação”. A “Comunidade com Força” interroga “onde ficará o compromisso tão aclamado pelo vereador em campanha, de exercer uma oposição séria, responsável, rigorosa e transparente. “Será que é mesmo oposição ou avizinha-se talvez antes uma posição de submissão?”, pergunta.

Também em comunicado, a CDU – Coligação Democrática Unitária do Fundão considera que a saída do vereador eleito pelo Chega apenas quatro meses após o início do mandato autárquico representa “um claro desrespeito pelo voto dos fundanenses, que elegeram projetos políticos concretos e não percursos individuais determinados por conveniências ou interesses de circunstância.” E acrescenta que a manutenção de Hugo Silva na vereação traduz-se, na prática, “na obtenção na secretaria de uma maioria absoluta, por parte do PSD, no executivo municipal. Trata-se de uma alteração artificial do quadro político resultante das eleições autárquicas, que desvirtua a vontade expressa pelos eleitores e levanta sérias dúvidas sobre os entendimentos que possam estar a ser construídos nos bastidores.” Também a CDU recorda que Hugo Silva, com a abstenção, viabilizou a delegação de amplas competências no presidente da Câmara, Miguel Gavinhos, “reduzindo significativamente o papel colegial do executivo municipal. Uma decisão que concentrou poder e fragilizou o funcionamento democrático do órgão, e que não pode ser desligada do atual contexto político.”

Já o presidente da distrital do Chega, João Ribeiro, lamentou à Lusa ter sabido da decisão “pelas redes sociais”, desmentindo qualquer contacto com os órgãos do partido, numa decisão “unilateral”, pedindo desculpa a todos quantos “depositaram confiança na lista do partido” no Fundão nas últimas autárquicas. João Ribeiro diz-se expectante com a próxima reunião do executivo, para perceber se a decisão de Hugo Silva “se move de um interesse pessoal, nomeadamente de integrar o executivo PSD e ficar com um pelouro a tempo inteiro e respetiva remuneração”.

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