A guerra no Irão e a anatomia de um choque económico

José R. Pires Manso

A eclosão do conflito envolvendo o Irão reacendeu um debate que muitos governos preferiam evitar: até que ponto a economia global continua estruturalmente vulnerável a choques energéticos? A resposta, à luz das reações dos mercados e das revisões de previsões económicas, é desconfortavelmente clara. Apesar de décadas de investimento em renováveis, diversificação de fornecedores e avanços tecnológicos, o sistema económico mundial permanece dependente de um estreito com apenas algumas dezenas de quilómetros — Ormuz — e de um conjunto de rotas energéticas cuja fragilidade é bem conhecida.

Os primeiros sinais foram imediatos. O petróleo subiu, em poucos dias, mais de 10%, o gás natural europeu e asiático disparou mais de 50%, e os mercados financeiros oscilaram com a volatilidade típica de períodos de incerteza geopolítica. Estes movimentos não são apenas reações emocionais dos investidores; são indicadores de um sistema económico que continua a reagir de forma quase automática a qualquer ameaça ao fluxo energético global.

Do ponto de vista técnico, o Estreito de Ormuz é um single point of failure da economia mundial. Como recorda a S&P Ratings, cerca de 20% do petróleo global e uma parcela equivalente do GNL passam por esta rota. O fecho prolongado do estreito — mesmo que improvável — seria um choque de oferta comparável aos grandes episódios das décadas de 1970 e 1980. A diferença é que, hoje, a economia global é muito mais integrada, mais rápida e mais sensível a perturbações súbitas.

As revisões das previsões energéticas ilustram bem esta vulnerabilidade. O Goldman Sachs aumentou significativamente as projeções para o gás natural e o petróleo, antecipando perdas de produção no Médio Oriente e um prémio de risco geopolítico persistente. A análise é tecnicamente sólida: inventários em queda, capacidade de armazenamento limitada e incerteza prolongada criam um ambiente propício a preços elevados. Contudo, a dependência de cenários de curto prazo revela a dificuldade estrutural de modelar choques geopolíticos num sistema económico que privilegia previsões estáveis.

No plano macroeconómico, o J P Morgan estima que preços elevados até meados de 2026 reduziriam o crescimento global em 0,6 p.p. e aumentariam a inflação em mais de 1 ponto. Embora os seus analistas classifiquem este impacto como “modesto”, a avaliação merece uma leitura crítica. A economia global pode não entrar em recessão, mas a combinação de inflação persistente, custos energéticos elevados e políticas monetárias restritivas cria um ambiente de risco que não deve ser subestimado.

A Europa surge como o caso mais emblemático desta fragilidade. Altamente dependente de energia importada, enfrenta uma redução do crescimento e uma pressão inflacionista que limita a margem de manobra do BCE. A Goldman Sachs estima perdas de 0,1 a 0,2 p.p. no crescimento da zona euro, Reino Unido, Suécia e Suíça. A Noruega, exportadora de energia, é a exceção que confirma a regra: num continente vulnerável, apenas quem controla recursos energéticos beneficia.

Na Ásia, o impacto é ainda mais direto. A China, que absorve cerca de 80% das exportações de petróleo iraniano, terá de procurar alternativas num mercado já pressionado. Economias como Tailândia, Coreia e Filipinas enfrentam deterioração dos termos de troca, moedas sob pressão e custos energéticos que podem comprometer a competitividade industrial. A análise dos economistas asiáticos é clara: mesmo um choque aparentemente pequeno — como um aumento de 10% no preço do crude — pode representar custos equivalentes a 0,2% do PIB nalgumas economias emergentes.

No Médio Oriente, o impacto económico vai além da energia. A suspensão de voos, a retração do consumo e o aumento da perceção de risco afetam setores como turismo, imobiliário e serviços. Países como Bahrein, Kuwait, Qatar e Iraque, dependentes de Ormuz, enfrentam riscos que podem comprometer estratégias de diversificação económica que vinham sendo promovidas há anos.

No mercado cambial, o dólar americano (USD) reforça a sua posição como moeda-refúgio. A resiliência do dólar não é apenas um reflexo da economia americana, mas da ausência de alternativas credíveis num contexto de volatilidade energética. O euro, por sua vez, enfrenta riscos adicionais devido à dependência europeia do gás natural, com o TTF a desempenhar um papel central na deterioração dos termos de troca.

O que este episódio revela, em última análise, é a contradição estrutural da economia global contemporânea. Por um lado, apresenta-se como um sistema sofisticado, tecnologicamente avançado e resiliente. Por outro, continua dependente de infraestruturas vulneráveis, de rotas marítimas congestionadas e de equilíbrios geopolíticos frágeis. A guerra no Irão pode ou não prolongar-se, mas já expôs uma realidade incontornável: enquanto o mundo não resolver a sua dependência energética estrutural, continuará a viver à mercê de choques que, embora previsíveis, parecem apanhar, sempre, os mercados de surpresa.

Como referido no artigo anterior, apesar de Portugal não importar nem gás nem petróleo daqueles países que transportam ou escoam esses produtos por aquele Estreito, a verdade é que pela forma globalizada como os preços dos produtos energéticos são formados, Portugal será afectado por estes eventos perturbadores do normal funcionamento dos mercados. E vai acontecer quer nos preços dos produtos energéticos – isso logo se comprovou na primeira semana a seguir aos ataques israelo-americanos ao Irão – quer nos preços em geral. Isto porque aqueles produtos são utilizados por todos os sectores de actividade económica. De facto, todos eles precisam de energia para produzir e também para transportar os produtos para os mercados consumidores/clientes. E essa influência vai sentir-se quer nos grandes centros quer nos lugares mais recônditos da província interior. A sua intensidade vai depender, sobretudo, da duração desta perturbação.

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