Gonçalo Casimiro, Gil Pereira e Leonardo Sales*
O Monumental é um dos locais acarinhados pelos estudantes da Universidade da Beira Interior (UBI). O restaurante abriu portas em 1994 e através do “Menu Estudante” continua a fornecer ajuda ao universo estudantill, assumindo um papel importante no seu quotidiano e nas suas refeições.
O percurso até aqui foi longo. José Brito, natural de Oliveira do Hospital, veio para a Covilhã há 57 anos para trabalhar na indústria têxtil. Nos primeiros tempos na cidade conheceu Otília, natural de Tortosendo, com quem casou. Antes de se dedicar à cozinha, José acabou por emigrar para Israel durante cinco anos. Regressou a Portugal para seguir a sua paixão pelo mundo da restauração. A esposa apoiou-o desde o início com o projeto e a sua própria experiência no ramo, onde sempre trabalhou, revelou-se uma mais-valia para o novo rumo do casal. Abriu então um estabelecimento junto ao Jardim Público, mas uma oportunidade de negócio levou-o ao sítio atual.

Fica localizado na Rua José Ramalho, a 200 metros do Polo Principal da UBI. No pequeno espaço, com vista para o Jardim do Goldra, José e a companheira de vida partilham todas as funções. O dono refere que no espaço há “uma equipa e as equipas jogam em conjunto”.
Os preços são apelativos e o proprietário reforça que o Monumental trabalha “para o público da Covilhã e para os estudantes”. Pensado para as carteiras dos alunos, o “Menu Estudante” disponibiliza o prato do dia por apenas 4,50 euros. Oferece sempre uma opção vegetariana, de carne e de peixe. Além disto, conta com uma ementa diversificada mas com foco na gastronomia tradicional e local. José também confessa que “perdemos parte da nossa margem de lucro para ajudar, de facto, as pessoas”.
O proprietário revela que nunca sentiu vontade de parar de laborar no ramo e que sempre teve o gosto “pela cozinha e pelo trabalho com o público”. Otília, mesmo reformada, concorda, “quando estou ali na cozinha, com pessoas diferentes, eu também gosto. Apesar dos problemas que tenho nos braços”.
A pandemia mudou o panorama. Antes, as portas do Monumental abriam às oito horas da manhã e o espaço permanecia em funcionamento contínuo até à noite. Contudo, os novos hábitos do público forçaram uma alteração. O negócio passou a abrir uma hora mais tarde e concentrou-se em almoços e jantares. A par disto, estabeleceu-se uma pausa de descanso à tarde. Deste modo, consumou-se a transição de café-restaurante para uma atividade mais dedicada ao serviço de refeições. A resiliência também marcou este período crítico. O proprietário recorda que chegaram a ser “o único restaurante da Covilhã aberto e tínhamos imenso, imenso, imenso trabalho”, devido ao serviço de takeaway que disponibilizavam.

Estudantes que regressam com os filhos
Recuando ainda mais no tempo, o casal recorda com carinho várias pessoas e histórias que os impactaram ao longo de três décadas. “A primeira bênção das pastas que a gente aqui fez foi de uma rapariga de Bragança, lá do Norte”, recorda José, referindo-se a Sabrina, que o marcou no primeiro ano do restaurante. A esposa completa com um sorriso, “até já cá veio mostrar os filhos”. A turma que estreou o curso de Medicina na UBI é outra das memórias guardadas com orgulho. Durante seis anos, um grupo de 16 amigos organizou um jantar no estabelecimento todos os meses, enquanto concluía a licenciatura. Otília refere que ainda guarda “as fotografias deles todos”, revelando que fazia sempre companhia às “meninas” e que hoje tem “saudades delas”. Já José afirma que passam pelo restaurante elementos com diversas funções na comunidade ubiana, com quem cria laços de amizade e confessa que tem “bastante orgulho nisso”.
Com o mesmo sentimento, o dono recorda a boa relação com os clientes ao longo dos anos, sublinhando que “durante estes anos todos, nunca nenhum estudante, nem ninguém nos faltou ao respeito”.
A dedicação do casal reflete-se na fidelidade de quem se senta à mesa. Há mais de cinco anos que Vasco Aleixo, natural de Tortosendo, não abdica de ir ao Monumental aos domingos procurar o arroz à valenciana, movido “pela comida e pela simpatia das pessoas”. Esta proximidade conquista também quem acaba de chegar à Cidade Neve. Para Madalena Gonçalves, aluna de medicina, o restaurante tornou-se a salvação logística quando a cantina da Faculdade de Ciências da Saúde fecha aos fins de semana, destacando também a vantagem de ter um local “barato e bom” perto da biblioteca central da universidade. A opinião é partilhada pelos estudantes de Engenharia Eletromecânica, Ricardo Martins e Lucas Ferreira. Enquanto Ricardo realça o serviço acolhedor e a proximidade com o Polo Principal, Lucas confessa visitar o espaço semanalmente e defende que o Monumental é um “luxo” para toda a comunidade académica.

Ajudar a superar despesas elevadas
O serviço do Monumental ganha ainda mais relevância na atualidade. Joana Melo, dirigente da Associação Académica da UBI (AAUBI), retrata uma realidade estudantil “cada vez mais complicada”, marcada pela subida do custo de vida. “Muitos estudantes têm imensas dificuldades em suportar despesas básicas, seja a renda, a alimentação ou o material académico”, alerta a dirigente, sublinhando que os apoios falham no acompanhamento às necessidades de quem escolhe a Covilhã para estudar.
Perante este cenário, o papel de espaços como o Monumental é importante, enquanto as estruturas estudantis continuam a exigir soluções. “Estudar não devia ser um privilégio, mas sim um direito acessível a todos”, remata Joana Melo.

Afinal, a história deste “porto de abrigo” começou muito antes de 1994, quando o proprietário estava na tropa e frequentava um café no Entroncamento com a mesma designação. Na altura, José prometeu a si mesmo que um dia abriria um “Monumental” na Covilhã. Três décadas depois, e enquanto soluções estruturais para o ensino superior não chegam, esse sonho da juventude cumpre a sua promessa diariamente na Rua José Ramalho. Funciona assim como uma mão amiga para a comunidade académica. O casal prova que o sucesso de uma vida dedicada ao público mede-se pelo respeito e carinho que ficam gravados na memória das pessoas e não pelas margens de lucro.
*alunos de Ciências da Comunicação na UBI
