A casa de portas escancaradas fechou-se

A APPACDM da Covilhã foi criada com o princípio da integração e da participação na vida da comunidade, mas a pandemia suspendeu as actividades no exterior
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De bata vestida e calçado que tem de mudar sempre que entra na instituição, Steve Sá, 29 anos, tira os restos de cola das mãos de uma das actividades. Os dias estão ocupados, mas nada é como antes na Associação Portuguesa dos Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) da Covilhã desde que a pandemia obrigou a uma reformulação total do funcionamento. Deixou de haver iniciativas no exterior, convive-se em grupos pequenos, que não se cruzam entre si.

Olhos verdes muito vivos e luzidios, sorriso aberto quando vê gente nova a quem contar as suas façanhas desportivas, Steve frequenta o Centro de Actividades Ocupacionais (CAO), todos os dias vai a casa e teve de se adaptar às novas normas de funcionamento. Nada comparado com as dificuldades sentidas por vários utentes do lar residencial que desde Março não veem a família, deixaram de poder estar com os colegas do CAO, de descer ao piso inferior e há meses que só veem os mesmos rostos, dos colegas da mesma valência e dos técnicos, agora com preocupações acrescidas às meras medidas de higienização e distanciamento.

Steve Sá, falador, entende a necessidade das novas regras, embora preferisse não ter de as cumprir. Quando o CAO, onde andam 60 clientes, teve de fechar por dois meses, o jovem do Teixoso “já tinha ouvido falar da doença” na televisão, embora não estivesse a contar “que chegasse cá”.

“Estive em casa 60 dias fechado. Foi murcho, fiquei um bocado desorientado, uma pessoa fica cansada de estar sempre a ver o mesmo na televisão. Fiquei feliz quando pude voltar, mas não como antes, porque não podemos estar todos juntos”, conta Steve Sá.

Trabalha num grupo reduzido e sempre com os mesmos profissionais. Muitos colegas mantêm-se em casa e são agora menos. A utilização simultânea da máscara e dos óculos é uma luta constante para não ficar com as vistas embaciadas.

Steve sente falta de quem não está, de quem não vê, das pessoas ali próximas, mas a quem não se pode agarrar, como era habitual. Tem saudades das actividades exteriores, sobretudo as desportivas, lamenta não poder realizar-se a festa de Natal e tem saudades dos companheiros do lar residencial, com quem não convive há meses. “Tenho saudades de tudo. Às vezes vejo-os lá em cima, no terraço, e aceno-lhes, falo com eles”, sublinha. As videochamadas são outra solução, um remendo que não substitui o contacto presencial.

(Reportagem completa na edição papel)

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