A cidade desceu a Serra

A cidade corre para sul e deixamo-la correr, mas há um centro que merece atenção!
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Desde há vários anos que todos nos vamos apercebendo que a Covilhã desceu a Serra. Não é preciso uma memória que vá além de 25 a 30 anos, para todos nos lembrarmos que o primeiro grande edifício a sul da cidade veio a ser inaugurado como a “Estação de Camionagem”, que roubaria, anos mais tarde todo o protagonismo da nossa “Garagem de S. João”, que esta semana dá destaque às centrais do nosso Jornal.

Para além disso, nada havia a não ser uma densa vegetação, que na inocência da nossa infância lhe chamávamos de “pântano”. Por lá, um terreno misterioso, povoado por duas ou três casas e alguns terrenos agrícolas, desciam um caminho de terra batida até se chegar ao então Monteverde, que na década de 90 abriu o mundo dos hipermercados da cidade.

Tudo foi deslizando para o sul. A área residencial, os serviços e muito comércio se veio a concentrar naquele que é hoje um outro centro da cidade, encimado pela rotunda que presta homenagem aos lanifícios que sempre deram nome à Covilhã.

As razões desta descida são mais que justificáveis, porque a situação geográfica da encosta serrana merece protecção, enquanto Parque Natural, e o impacto ambiental não poderia afectar a nossa montanha.

Há, no entanto, um centro histórico cada vez mais deserto ou até mesmo abandonado, que merece a nossa atenção e nos faz reviver o que fizemos e o que hoje colhemos.

Um breve deambular pelas estreitas ruas da Covilhã, parcas em estacionamento, difíceis em acesso e desprovidas do ruído familiar, deixa-nos observar cada vez mais telhados caídos, paredes derrocadas e janelas enfaixadas em tijolos de barro que contrastam com a grandeza do granito dos icónicos edifícios que já foram.

A zona de Santa Maria, pintada pelas mãos dos novos “artistas de rua”, é um marco para a visita dos passantes. A própria Igreja em si, que sob pena da destruição e o receio do vandalismo tem de ter tantas vezes as portas fechadas, é polo de atracção. Porém, a ausência da vizinhança e de um comércio que era vivo por aquelas bandas, não permite tal audácia, para que não seja “pior a emenda que o soneto”.

Mas para além daquele que agora é o “bairro alto” das noites estudantis, há um “Pintado” de portas fechadas e janelas quebradas em total destruição, há, na mesma rua, uma “Pensão de S. Francisco” que já não acolhe nem dá vida aos que vinham em busca de neve e tantas das casas envolventes, que perderam a sua identidade e deixaram a Covilhã descer para sul.

O investimento público, por certo, não poderá fazer muito no domínio do privado. No entanto, não haverá uma responsabilidade comunitária e civil para que a cidade antiga receba a dignidade que merece? Que se poderá fazer para valorizar o que fez parte da nossa história mais recente, e que parece ter perdido o valor de quanto atraiu tanta gente às ruas da pequena cidade, agora crescente em múltiplos edifícios de aglomeração populacional?

Deixar cair telhados, por não haver investimento e fracos recursos para tal, não será uma boa política de gestão. Os incentivos e a comparticipação comunitária têm de estar na lista das prioridades de quem deseja que a cidade cresça para sul, mas que não perca a identidade que lhe deu nome, fama e a glória, de há poucos anos passados.

Não se resolve o problema apenas com a reabilitação de algum do casario por privados que, muito oportunamente, têm olhado para o património como uma rentabilização através do alojamento para estudantes. Honra lhes seja feita! Mas precisaríamos de mais preocupação para com o coração da cidade, porque, como num corpo humano, é do coração que brota o sangue que dá vida às extremidades.

A cidade corre para sul e deixamo-la correr, mas há um centro que merece atenção!

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