A coveira que se recusava a entrar em cemitérios

Nunca se imaginou nessas funções, mas imponderáveis da vida fizeram com que Susana Alves passasse a abrir sepulturas, um trabalho duro, de que aprendeu a gostar e que é mais do que uma profissão
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Depois de perder o irmão, de 25 anos, os cemitérios passaram a ser locais onde Susana Alves se sentia desconfortável e não entrava. Não ia a funerais e nunca se imaginou a trabalhar como coveira, profissão que as circunstâncias a obrigaram a abraçar e de que aprendeu a gostar, apesar da dureza física e psicológica.

Hoje com 30 anos, foi há cinco que se viu confrontada com essa necessidade, quando o marido, com uma empresa do ramo, deixou de poder assegurar o serviço e, com três filhos, um com apenas semanas, se viu obrigada a enfrentar os seus receios e a pôr-se à prova, para que o negócio não desmoronasse e perdesse o sustento.

Susana Alves não esquece o dia em que fez o primeiro funeral, em Benespera. “Não sabia nadinha e tinha receio. Só pensava que não conseguia, mas percebi que era capaz de fazer muito mais do que pensava”, lembra. Demorou algumas horas a abrir a primeira sepultura, seguindo “a cábula” que o marido lhe passou, com as medidas para covas normais e duplas e as dicas sobre a forma como o serviço deve ser feito.

“Trabalhar nunca foi um problema”, realça Susana Alves, de Cantar Galo e residente no Teixoso. Estudou até ao 12.º ano e aos 17, no Verão, foi apanhar fruta. Depois trabalhou com crianças, na  associação Beira Serra, passou pela hotelaria, pelas limpezas, até ficar a cuidar dos filhos. Quando o mais novo tinha apenas três semanas, o marido, Licínio Santos, foi detido por conduzir sem habilitação legal. “Não podia deixar isto ir abaixo. Fui mesmo obrigada a pegar”, recorda a proprietárias da SA Serviços Fúnebres, que prefere dizer que é coveira em vez de empresária.

“Quem faz mal são os vivos, não os mortos”

Licínio passou-lhe um papel com informações úteis. A largura e altura das sepulturas, como fazer quando tem campa, os cuidados a ter, a forma como a urna deve entrar, pormenores a ter em conta na presença da família. As dúvidas eram tiradas na hora das visitas ou quando podiam falar cinco minutos por telefone. “Ela ainda hoje me deve a formação”, graceja o marido.

Não é comum ver mulheres nesta profissão e a chegada de Susana Alves ao cemitério causou surpresa, como ainda hoje por vezes acontece, cada vez menos, nas 72 freguesias onde presta serviço, maioritariamente na Covilhã, Guarda e Sabugal. Foi-se habituando, numa área onde a concorrência é pouca, e gosta do que faz. Apesar das dificuldades, é uma actividade que aprendeu a fazer, a melhorar e que lhe dá tempo para pensar. “A mim isto calhou-me, sem contar, mas gosto do que faço. Faz-se muito sacrifício, mas vale a pena. Quem faz mal são os vivos, não os mortos”. Fala quem já espantou fantasmas de outrora.

Nem todos os dias são bons e o percurso não foi fácil. “Chorei muitas vezes sozinha”, conta. O maior receio é algum dia falhar as medidas, 80 centímetros de largura e 2,10 metros de comprimento, para uma sepultura normal. “Graças a Deus nunca passei vergonha com ninguém”, diz. “Agora já tenho a fita métrica nos olhos”, acrescenta.

No primeiro serviço que fez, há cinco anos, recorrendo a apontamentos, a coveira achou que não ia conseguir abrir a sepultura, um trabalho que se tornou rotineiro.

“Fui aprendendo por mim”

Chegou a ter oito funerais no mesmo dia. Nessas alturas, tinha de pedir ajuda para tapar, missão nem sempre simples, por ser difícil encontrar quem queira trabalhar na área. Nesses dias vai-se para casa arrasado. “Doem-nos as costas, os braços, é muito duro”, vinca.

O factor psicológico também pesa. “Estamos a lidar com a dor, com a perda. Acabamos por lidar com as pessoas nos piores dias das vidas delas”, enfatiza. Dão por si a confortar famílias. Susana Alves tem a preocupação de fazer a terra deslizar devagar quando os que são próximos do defunto estão presentes, de retirar as pedras para não provocar maior choque, ao baterem no caixão, espera pela autorização da família para começar a tapar a sepultura. “Fui aprendendo por mim como agir de forma a causar menor impacto nos familiares”, acentua a coveira, que tem sempre presente o dia em que se despediu do irmão e tem “especial cuidado” com alguns detalhes.

“Nunca se sabe o que se vai encontrar”

O trabalho é árduo e há condições que o tornam mais difícil. Quando chove trabalha-se com o terreno enlameado, a terra torna-se mais pesada e exige maior esforço. Por vezes é o calor excessivo que não ajuda. Outras o frio que se entranha. Se a terra “for boa”, abre uma sepultura em 30 ou 40 minutos, hora e meia se for dupla. Mas há solos, com muita pedra, que demoram três horas a cavar, com a ajuda do martelo.

“Nunca se sabe o que se vai encontrar”. Por vezes, o trabalho é a duplicar, quando abrem, os corpos ainda estão em decomposição, não podem mexer e são obrigados a cavar outra sepultura. Têm de separar ossadas e restos de roupa ou peças do caixão.

O risco está sempre presente, de apanhar uma bactéria nociva, apesar das máscaras de carbono activo, dos fatos descartáveis e das medidas de segurança redobradas desde que a pandemia provocada pela covid-19 se tornou presente, comenta a coveira, enquanto calça as luvas pretas que lhe tapam as mãos com as unhas pintadas de azul.

Para o que faz, Susana Alves considera não ser um trabalho bem pago. Há freguesias com quem a SA Serviços Fúnebres tem acordos que pagam 88 euros mais IVA. Os serviços normais variam entre os cem e os 200 euros. “Não se ganha mal, mas ganha-se mal para o que se faz, porque exige um grande esforço”, considera Susana. “Não dá para enriquecer, mas dá para levar uma vida mais ou menos”, completa Licínio Santos.

Numa altura em que o marido deixou de poder assegurar o serviço, e com três filhos, Susana Alves viu-se obrigada a enfrentar os seus receios.

“Não é fácil lidar com a emoção dos outros”

Susana Alves habituou-se a ser coveira e não se vê a mudar de profissão, embora se há cinco anos lhe dissessem que iria fazer este trabalho, a alguém a quem fazia impressão entrar em cemitérios, acharia a ideia um absurdo.

Aprendeu a gostar de uma actividade com muitas especificidades, ao ar livre, por conta própria. No outro lado da balança estão os contras. “Não podemos fazer planos. Não temos fins-de-semana, por vezes não há dia de Natal, o telefone está ligado 24 horas”, refere.

Os filhos habituaram-se. Já calhou o mais velho, de 12 anos, acompanhá-los. Fica na carrinha, apercebe-se das dificuldades e até brinca com a profissão dos pais.

Susana Alves garante nunca ter sentido qualquer estigma, embora Licínio seja da opinião que a profissão nem sempre é respeitada como devia.

Entre amigos, acontece trocarem-se piadas de parte a parte. “Olha aí o meu dinheirinho todo de pé”, “esse corpo há-de ser meu” são algumas das graças que a coveira diz aos amigos, conta, a sorrir.

Licínio Santos diz que a forma de trabalhar tem ajudado a mudar mentalidades e a dissipar os estereótipos associados aos coveiros. “Hoje já não é habitual ver os coveiros borrachões. Cada vez temos de ser mais profissionais. Nós apostamos num serviço diferente, respeitamos as pessoas, não se bebe no horário de trabalho, porque dá mau aspecto, preocupamo-nos com a imagem, em usar um uniforme de cor discreta, temos em atenção a higiene, a postura”, enumera.

Chora-se por desconhecidos

Se lidar com emoções não é fácil, há alturas em que essa capacidade é levada ao limite. Por exemplo quando se enterra alguém próximo, ou em situações com que Susana sente maior empatia. Há pouco tempo tiveram de se despedir de um rapaz que era como um irmão para Licínio. “Aí não é um serviço normal. Ficamos a pensar que não se pode falhar. Quando é alguém chegado é sempre muito difícil, do pior que nos acontece”, partilha Susana Alves.

Com filhos pequenos, não conseguiu deixar de se por no lugar da família das três crianças que sepultou. “Nessas alturas eu revejo-me e sinto a angústia deles”, desabafa. “Quantas vezes choro sem conhecer as pessoas, só de ver”, frisa.

Desde que a pandemia provocada pela covid-19 ganhou protagonismo, mudou comportamentos e levou à imposição de restrições e de um limite de pessoas nos funerais, esses momentos “tornaram-se ainda mais tristes”, nota Susana Alves. “Os familiares não terem esse conforto é triste, porque é nestas alturas que se precisa de um abraço, de uma palavra amiga, de apoio. Aí ganha importância o nosso papel, porque o resto vai embora e quem fica com a família somos nós, temos de ter essa sensibilidade e, se necessário, confortar”, lamenta.

Há locais onde o limite são dez pessoas, outras 20. Susana e Licínio fizeram um funeral, no Sarzedo, apenas com dois familiares da pessoa falecida. “Era mais gente ligada ao serviço fúnebre do que gente próxima”, lastima, considerando que “não se pode facilitar” perante um vírus desconhecido.

Após o desconfinamento, dos outros, porque a sua profissão “não pode parar”, notou incumprimento e tornou-se frequente a GNR passar para evitar grandes ajuntamentos.

“Aqui aprende-se muito, lida-se com muitas coisas que não se percebe quando se vê de fora. Não é fácil lidar com as emoções dos outros”, comenta Susana Alves, de ancinho na mão. Mas segue em frente, determinada, depois de ter aprendido a fórmula para fazer o seu trabalho: “tenho de encarar a morte com a naturalidade com que encaro a vida”.

 

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