A cultura e o culto

O culto religioso tem mais do que espaço nestes tempos de confinamento, desde que (…) os espaços sejam seguros e garantam as normas de higienização
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Não se podem separar Culto e Cultura. Vindas do étimo latino “colere”, encontra o seu significado mais profundo na “acção de tratar”, “cultivar” ou “cultivar a mente e os conhecimentos”. A evolução do étimo levou à passagem do “acto de plantar e desenvolver actividades agrícolas” para designar as capacidades intelectuais e educacionais das pessoas.

Nesta noção do “cultivar”, necessariamente há um implícito acto de cuidar, como o exige cada preocupação agrícola, seja em que fase do seu processo for.

Também o culto é um acto cultural, mas não se cinge exclusivamente a isso. Aliás, todas as formas de culto são sempre a expressão de uma cultura: aquilo que se lê, o que se canta, a expressão corporal, os ornamentos e acessórios que se usam são sempre sinal de uma inculturação. Caso contrário, o culto cai no erro de se tornar vazio, oco e sem sentido.

Falo disto motivado pelas muitas críticas e questionamentos sobre a prática religiosa durante este tempo de confinamento. Primeiro, com uma necessidade de poder afirmar que a expressão “celebrações religiosas” como o Governo as classificou, como fazendo parte da lista das 52 excepções, não designam apenas o culto cristão.

O Portugal de hoje não é exclusivamente católico. Hoje, e cada vez mais, também se reza na sinagoga, na mesquita ou em tantos outros lugares onde tantas comunidades se reúnem para invocar o Transcendente em que crêem e de que tanto necessitam, sobretudo no momento presente, diante da instabilidade que todos experimentamos.

Mas além desta “apologia” à possibilidade de podermos rezar em comunidade, há ainda essa mesma preocupação que é necessário ter me conta. O Homem está tendencialmente aberto e disponível para a relação com o Sagrado. Nele, a humanidade encontra a referência para as suas impotências e incapacidades e, por isso, a pandemia justifica, por si só uma aproximação a esse sagrado, como ponto de referência e equilíbrio, de sustentação e fortalecimento da esperança.

E assim como as artes, que cultivam o espírito e o elevam, assim como o teatro, a música, o museu ou o bailado deveriam continuar a ser palco para a elevação das mentes, o culto religioso tem mais do que espaço nestes tempos de confinamento, desde que, e como até aqui, os espaços sejam seguros e garantam as normas de higienização para todos.

A Igreja Católica deu exemplo, no primeiro confinamento, a “fechar portas” e a promover o cuidado para com todos os que frequentavam os templos cristãos. Não celebrou comunitariamente a Páscoa, não promoveu o ajuntamento do 13 de Maio e antecipou-se às muitas estratégias de evitar a propagação do sars- cov2.

Não deixou de ser Igreja: rezou em múltiplas formas e adaptou-se com criatividade aos difíceis e exigentes tempos que se vivem, assistiu doentes, alimentou os frágeis, assumiu as dores da humanidade e porque fiel ao seu “propósito” continuou a conduzir os homens até Deus e trouxe Deus até aos homens. Mas fez-lhe falta, como faz a todos nós, o encontro com a comunidade, a expressão pública da fé e a comunhão do Corpo de Cristo.

Diante dos dilemas espirituais, dos esgotamentos e cansaços psicológicos, fazer este encontro com a dimensão espiritual, cuidar do bem-estar, reforçar a ligação com o Sagrado, não é um capricho nem um privilégio. Olhemos para esta possibilidade como vantagem de uma cura que fortalece os espíritos que se mantêm na luta contra um tempo tão difícil. Na cultura do cristão, “ir à missa” não é prémio de bom comportamento: é remédio porque se reconhece doente

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