A esperança vive-se

A ciência contribui muito para o bem da humanidade, mas não é capaz de a redimir
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Nestes tempos duros e dolorosos, de incertezas e instabilidades, de medos e agoiros pessimistas, a palavra ESPERANÇA, é a que mais se tem ouvido por aí, como que sendo um remédio contra a impotência humana e a nossa incapacidade de avançarmos no caminho.

No entanto, a esperança, de que tanto se fala, não é somente uma palavra vã que serve de talismã contra a má-sorte ou contra a nossa fragilidade. A esperança de que temos tanta necessidade, no momento presente, é resultado de uma atitude crente, convicta e bem definida de que o bem maior, o bem desejado, se alcançará.

Por certo, e com todas as razões, mais do que justificadas, falamos de uma esperança que nos faça crer no fim desta pandemia provocada pelo sars-cov 2, que tem mutilado a nossa habitual forma de viver, trazendo-lhe novas normalidades, difíceis de acolher e aceitar.

Mas a esperança, sobretudo na atitude de um crente, é um acto que se vive e se experimenta, como resultado da fé posta em prática. Não se resume a uma espera passiva, de braços cruzados, de quem vê os ponteiros do relógio passar, mesmo que entediados pela demora com que se cruzam os segundos com os nossos longos dias.

A Igreja iniciou, há poucos dias, o tempo do Advento. Por si só, este é o tempo litúrgico da esperança. Tempo que recorda e ajuda a preparar a festa que comemora o Natal, mas também tempo que nos aponta para a espera constante, dos que crêem, na vinda de Cristo, para “renovar todas as coisas”.

Este tempo mostra-nos e aponta-nos a realidade dual em que vivemos: caminhamos na esperança de alcançar pequenas coisas, metas ou objectivos, mas com o olhar fixo na esperança maior que é a de conquistar uma vida sem fim, para além de todas as dores, penas e trabalhos.

O Advento é, portanto, o tempo propício para despertar as consciências para a expectativa de um desejo que se há-de realizar, pela força de uma fé que possuímos e dos gestos de caridade que realizamos. E é assim que se vive a esperança!

Bento XVI, Papa Emérito, ofereceu ao mundo, em 2007, um tratado sobre esta esperança, que encontra fundamento em Jesus Cristo, cuja vinda a esta realidade humana, consumada há mais de dois mil anos, na Encíclica “Spes salvi”.

Nela explicava claramente que a esperança “consiste, no conhecimento de Deus, na descoberta do seu coração de Pai bondoso e misericordioso. Jesus, com a sua morte na cruz e com a sua ressurreição, revelou-nos o seu rosto, o rosto de um Deus tão grande no amor que nos comunicou uma esperança inabalável, que nem sequer a morte pode derrubar, porque a vida de quem se entrega a este Pai abre-se à perspectiva da bem-aventurança eterna”.

Todos observamos e percebemos que o progresso da ciência moderna e da tecnologia relegaram cada vez mais a fé e a esperança para a esfera privada e individual, de modo que hoje sobressai, de forma evidente e por vezes dramática, que o homem e o mundo precisam do “Deus verdadeiro”, para não permanecerem privados de esperança. E este tempo de pandemia serve-nos de comprovação plena deste dado.

A ciência contribui muito para o bem da humanidade, mas não é capaz de a redimir. O homem é remido pelo amor, que torna boa e bela a vida pessoal e social. Por isso a grande esperança, a plena e definitiva, é garantida por um Deus Amor, do qual somos reflexo, na solidariedade e fraternidade que vivemos uns com os outros.

O “umbiguismo” e narcisismo não são atitudes coerentes para quem tanto deseja e busca um amanhã melhor. Pelo contrário, são destrutores e impedem de se saborear e viver a esperança, que por agora vai matando as nossas sedes. Que não nos falte esta ESPERANÇA!

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