A urgência do “tempo novo”

Somos mais do que a imagem e a figura com que nos vemos na passagem rápida de uma rede social
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Efémero: é este o adjectivo cada vez mais recorrente e caracterizante da nossa era e dos nossos dias. Tudo, ou quase tudo, vai assumindo um carácter de efemeridade, de frivolidade e até vulgaridade, quando nos apercebemos da rapidez e velocidade a que o mundo corre e se altera.

A onda digital e o valor da imagem que passam pelos olhos num apressado movimento do nosso dedo sobre o táctil ecrã de um aparelho multimédia, transformaram a notícia, o acontecimento e o momento em algo tão rápido que já não é capaz de nos captar a verdadeira atenção, que lhe dedica a observação dos olhos e apreciação da mente.

E se assim vamos com as coisas mais triviais do quotidiano, não menos o vivemos com as realidades psicológicas e espirituais da existência. Passamos pela vida a correr, sem capacidade de parar e de nos observarmos no nosso íntimo. E este constitui, por si só, um grande risco para a nossa alienação da realidade em que nos inserimos e do mundo que pisamos.

Na espiritualidade cristã, segundo o ensinamento paulino, bem sabemos que por aqui “tudo é passageiro”. Porém, a nossa realidade do momento é um predicado de futuro, que exige uma concentração no que há-de ser e não uma fixação no já e no agora.

E é por isso, que os tempos fortes da espiritualidade nos ajudam a perceber de que forma caminhamos e de que “prioridades” nos fazemos, para que não nos deixemos dominar pela frivolidade e rapidez em que a vida nos consome.

Enquanto corremos e vivemos velozmente, muitas vezes sem sabermos para onde nos dirigimos, vivemos nesse desejo de alcançar, de chegar, de conseguir. Mas se o não fazemos marcados pela esperança e convicção de que “tudo depende sempre de mais alguém”, caímos neste tempo de isolamento e autoconsolação, que nos vão tentando curar as frustrações e os desânimos impostos.

Precisamos de um tempo novo, mais do que alguns minutos no relógio… Precisamos de recriar as nossas bases e sustento da nossa realidade, porque ela não é fugaz, como efémeros são os nossos acontecimentos.

Este tempo novo tem de ser o dos ponteiros que se alinham na preocupação connosco mesmos, sem deixarmos que a vida faça um “fullscreen” nos nossos momentos e os apague para uma pasta que se guarda no inconsciente do que nos define.

Somos mais do que a imagem e a figura com que nos vemos na passagem rápida de uma rede social, que faz da existência um “clique” de que se gosta ou não e gosta. E é por isso que necessitamos tanto deste tempo novo, que valorize relações que alegrem a vida pessoal com a presença na vida dos outros e nos preencha a alma com o sabor da realidade que nos envolve.

Quando começamos um Advento, e nele ouvimos vezes sem conta a palavra “Esperança”, anima-se-nos a coragem de nos lançarmos na aventura de fazermos diferente, de recuperarmos o bem essencial de um convívio saudável e harmonioso, de nos integrarmos em projetos de entrega e de causas que beneficiem as instituições e as pessoas.

Porque esta “espera” de quem sabe que iremos mais além, não nos desanima nem nos vence pelo cansaço, mas antes nos desperta para um desejo maior de que tudo permaneça, não pelo que temos, mas pelo que fazemos e damos. Este é um eterno advento, que nos prepara para o eterno bem, e que no-lo deixa sentir, de algum modo, no hoje em que gastamos os nossos minutos.

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