A vacina de Lavoisier

Que a justiça não deixe de julgar estes casos insólitos
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João de Jesus Nunes

Embora abrandando, ainda são tempos difíceis os que estamos atravessando. Muitas famílias cruzaram-se com períodos longos de sofrimento. Também muitos de nós vivemos momentos de angústia. O medo de apanhar a Covid 19. O stress. Através da Fundação Portuguesa de Cardiologia, o Professor Doutor Mário Simões deu conselhos muito apropriados, salientando que o stress começa logo nas nossas casas com as notícias mais do mesmo. Que “viver no medo de apanhar a doença aumenta mais a probabilidade de a apanhar”. Num país em que passámos dos oito aos oitenta, estamos agora a recompor-nos desta situação anómala, porque pensámos em determinada altura que eram águas passadas.

Neste confinamento em que, pela segunda vez, somos forçados, parece-nos ter começado uma proximidade mais benévola, onde continuam privilegiados os telefonemas e os meios da tecnologia digital.

Felizmente que o modo de dar as notícias da pandemia, duma forma sensacionalista, por alguns canais televisivos, tiveram no bom senso de alguns dos seus “atores” a maneira de as alterarem para uma informação em termos normais, sem ênfase.

Uma curiosidade neste tempo pandémico, por cá, foi um “surto” linguístico que surgiu, pois passou a ouvir-se dizer vácina em vez de vacina, entre outras palavras. Ouvimos isto nas televisões, por pessoas de vários quadrantes: alguns jornalistas, médicos, comentadores e até governantes. Mesmo não sendo estes personagens nortenhos ou brasileiros, onde aqui se poderia aceitar a forma regional de pronunciar esta palavra.

De tanto se falar em vacina, e dos factos que com a mesma têm ocorrido, leva-me ao tempo em que andava no ensino secundário e estudei química. É que, nestes últimos tempos que estão a decorrer, alguns senhores e senhoras com responsabilidades em vários lugares mais ou menos destacados ao serviço do país, em diversas instituições, aqui e ali, como que adotaram a Lei do grande Lavoisier, numa interpretação personificada nos seus interesses, ou seja, que, de facto, “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Foram aquelas vacinas que sobrevoaram para os que estavam fora do que seria normal as não virem receber agora. Porque outros, na ordem lógica para serem vacinados face à perigosidade por força das suas profissões ou idade, devido à sua aplicabilidade indevida, foram preteridos. Ficam agora os infratores em foros de processos disciplinares e crime.

Nada se criou de oportunidade para os casos mais urgentes, nada se perdeu de encontrar ali uma ocasião favorável para os interesses pessoais, e tudo se transformou para os iluminados, naquela de chico-espertismo, que procuram agora, entre a peta e a desculpa, sair da encruzilhada em que se meteram.

Que a justiça não deixe de julgar estes casos insólitos. É que isto merece uma reflexão e envergonha-nos. “Não é só a imunidade que falta entre os portugueses. A muitos falta um maior humanismo, um sentido do dever cívico e uma crença sincera de que se pode ser maior a servir o outro”, nesta sociedade cada vez mais egoísta.

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