Acabou-se a alegria?

A alegria é uma rede que vai abarcando todas as dimensões da vida humana sem deixar nenhuma fora dessa faina
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Fátima, Futebol e o Fado sempre foram três identificadores garantidos para a alegria portuguesa. A fé e esperança no milagre, ou a gratidão perante as graças recebidas, aquela sensação de dor e alegria em misto de canção que desperta saudade e renova amores ou a fúria, a garra e a expectativa de uma bola a fazer as delícias da multidão, quando entra na baliza do adversário.

De acordo com um estudo da Universidade de Comillas- Madrid, recentemente publicado, uma em cada três pessoas nos países atingidos pela pandemia sofre de um tipo de cansaço extremo chamado “fadiga pandêmica”. E isso é visível nas diversas classes trabalhadoras e de actividade pública. Sinal este que nos parece indicar que muita da alegria que nos caracteriza depende do bem-estar, da ausência dos problemas, das dificuldades e das circunstâncias do nosso dia-a-dia e não de uma alegria que pode ser cultivada especialmente através da fé e da gratidão pelas pequenas coisas.

Agora que Portugal findou a sua participação no Campeonato da Europa, é mais do que oportuno repensar, novamente, a alegria a que somos convidados sempre e em qualquer momento e não na pontualidade dos factos que vão marcando as nossas vidas.

A alegria deveria ser observada como uma aspiração gravada no íntimo do ser humano, como um dom que nos permite reconhecer toda a fortaleza que anima a aspiração humana e que se realiza como a grande inimiga do obstáculo e da fraqueza.  Por isso, a vivência de uma frustração ou de um conjunto de obstáculos que se colocam à frente de quem somos nunca nos deveria retirar as forças que nos levam à luta e à busca de uma nova oportunidade.

O Papa Francisco, que a cada uma das suas exortações tem sempre iniciado com o vocábulo “Alegria”, seja na primeira “Alegrai do Evangelho”, “Alegria do Amor” ou a “Alegrai-vos e exultai”, referiu há poucos dias que “quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem.”

E aí, para os crentes num mundo novo, de esperança e de renovação, está a raiz para se existir, porque a alegria é uma rede que vai abarcando todas as dimensões da vida humana sem deixar nenhuma fora dessa faina.

Creio que neste tempo de pandemia, de avanços e recuos, de instabilidade e surpresas diárias, são as pequenas coisas, as pequenas vitórias e conquistas, que nos levam a continuar o desafio de não deixarmos que a derrota se manifeste com mais imponência do que o ritmo das vidas lutadoras e capazes de avanço.

E, se olharmos com atenção, existem muitos outros motivos de alegria: os bons momentos da vida familiar, a amizade partilhada, a descoberta das próprias capacidades pessoais e a consecução de bons resultados, o apreço da parte dos outros, a possibilidade de se expressar e de se sentir compreendidos, a sensação de ser úteis ao próximo, a alegria de viver, a alegria face à beleza da natureza, a alegria de um trabalho bem feito, a alegria do serviço, a alegria do amor sincero e puro são causas mais do que suficientes para continuarmos esta luta pandémica, que nos vai roubando pessoas e hábitos, tradições e costumes, que, mesmo que não recuperemos totalmente, em nada podemos deixar vencer como “desgraça”.

O Euro findou para Portugal, mas novos golos repetirão a alegria dos entusiastas e com uma forte dose de paciência e esperança, podemos voltar a ouvir o hino de que não nos falta a alegria.

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