Ainda temos Seminário?

O contexto actual não é de todo o ideal
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“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” é um dos paradigmáticos adágios de Camões que nos acompanha na realidade do quotidiano, cada vez mais veloz e também cada vez mais certeiro, a todos os níveis da nossa vivência social e cultural.

Assim acontece com a formação dos sacerdotes, com o número dos jovens que fazem esta opção de vida e aceitam o desafio de uma entrega a um projecto exigente e cada vez menos escolhido como forma de vida.

A Semana dos Seminários, que tradicionalmente marca a vida da Igreja no início do mês de Novembro, traz-nos a esta reflexão, num tempo em que cada vez mais a crise vocacional e opção pelo sacerdócio se evidenciam no país e em particular na nossa Diocese.

Necessariamente, quando nos reportamos a esta reflexão, não podemos deixar de ter como dado a década de 90 em que na Diocese existiam quatro seminários com vida e constituindo escolas de formação de referência para tantos jovens, cujas famílias encontravam nestes espaços um local fidedigno para educação dos seus filhos.

Gouveia, Tortosendo, Fundão e Guarda eram conhecidos pelos seus seminários, cheios de vida, transmissores de bons valores e muito capacitantes na missão de educar e acompanhar na descoberta vocacional dos que os frequentavam.

Hoje, o conceito de educação, aletrado pelo contexto socio-cultural, já não olha da mesma forma para estas casas de formação. As famílias deixaram de optar por este modelo para educação dos jovens e a Igreja da Guarda viu estas quatro grandes casas, assim como o resto do país, fechar portas e “resignar-se” aos sinais dos tempos.

O Seminário de hoje é diferente. Segundo o responsável pela Comissão dos Ministérios e Vocações, da Conferência Episcopal, D. Augusto Azevedo, “o seminário é, pela sua natureza, uma comunidade formativa, um tempo de «caminhar juntos» (…) que continua a ter, um papel determinante no estilo, no modo de ser presbítero em cada diocese”.

E por isso, com apenas 5 seminaristas no momento, a Diocese da Guarda, junto com as de Viseu, Lamego e Bragança, teve de buscar em Braga essa comunidade, devido ao reduzido número de estudantes seminaristas que cada diocese vai tendo como garante do sacerdócio no futuro.

É daí que nos surge a pergunta inicial: “Ainda temos Seminário?”. Temos espaços, quase sem outra vida se não a de encontros e eventos eclesiais, temos um grupo de jovens que ainda se deixa seduzir pelo modo de vida que parece cada vez menos entendido pelo contexto actual e temos, lá longe da realidade diocesana, os futuros padres que darão resposta ao que a Diocese envelhecida e desertificada vai tendo como necessidade.

O contexto actual não é de todo o ideal, a distância da realidade diocesana e a exigência formativa serão também motivos da não opção, mas talvez a maior responsável por essa tão badalada crise vocacional estará na forma como nós, padres, vamos mostrando que o somos, talvez incapazes, por mil motivos, de testemunhar o que nos fez tomar esta opção e continuar a servir com a mesma alegria inicial, que marcou a história de cada vocação.

“Todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”, retoma o soneto de Camões. Sejam estes sinais de mudança os que abram a Igreja a uma diferente forma de entender o sacerdócio desde a sua base, desde a sua formação.