Alegres ou medicados?

Sem alegria ofusca-se a esperança e sem esta não há razões para confiança
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Tradicionalmente, a Igreja celebra sempre o antepenúltimo domingo que prepara o Natal como o “Domingo da Alegria”. É já neste domingo, 12, que se renova a tradição e as celebrações serão marcadas por esta tónica, num apelo a que se renovem os motivos para o sorriso, o espírito livre e dócil, que se desejam na mente e no coração dos humanos.

Mas diante de tantos constrangimentos, da instabilidade do momento e neste prolongado período pandémico que rege as nossas rotinas e comportamentos sociais, também a alegria parece ter entrado no esquema da “crise” em que vão caindo todas as nossas realidades.

E se este dado for realmente provado, se as pessoas de hoje estão a perder verdadeiramente os motivos para a alegria, então mais complicado se torna gerir todo o processo anímico e de restabelecimento da nossa normalidade. Sem alegria ofusca-se a esperança e sem esta não há razões para confiança e até para continuar a travar a batalha em que nos colocou o nosso tempo.

Mas para isso, é necessário, antes de tudo reconsiderar sobre quais as verdadeiras razões para a alegria humana. O que nos traz de sorriso no rosto e nos deixa exprimir na nossa “positividade” atitudes que revelem o bem-estar da mente? Será que estamos a colocar os motivos para o nosso sorriso apenas naquilo que parece longínquo e inacessível, material ou supérfluo?

Na era digital e virtual que marca o ritmo da evolução tecnológica, o conceito de “lifestyle” (bem-estar) pode ser entendido como a razão para a alegria de muitos. O efémero do momento, transmitido em imagens rápidas de sensualidade e paisagens paradisíacas, podem facilmente iludir na descoberta do que é verdadeiramente ser alegre e saber viver.

É que na era em que não conhecíamos o desenvolvimento tecnológico que nos trouxe a internet a alegria já existia e os motivos para ela sobressair eram bem diferentes e menos nefastos para o âmbito psicológico do Homem.

Nunca como hoje ouvimos falar desses neologismos que vão caracterizando a mente humana: ansiedade na adolescência, depressão, síndrome de “burnout”, psicofármacos e tantas outras realidades associadas à saúde mental, ainda tão maltratada e de algum modo discriminada pelo preconceito.

Talvez por isso, a poucos dias destes dias alegres, que marcam o Natal, seja oportuno recuperar a certeza de que a raiz da verdadeira alegria se encontra na conquista das pequenas coisas, na simplicidade das relações sadias, na convicção dos nossos valores que nos orgulham e deixam a consciência naquela paz que se traduz em paz, interior e com os outros.

A dimensão “material” a que estamos sujeitos, mais flagrantemente nesta época, não pode ser o motivo para estarmos de bem connosco e com os que nos rodeiam. Trocar lembranças, preparar consoadas, mostrar os nossos pequenos mundos numa página virtual, não são de todo razões para nos deixarem deprimidos ou em desânimo.

O convite à saudável relação com as coisas e as pessoas, nunca pode deixar de ter a alegria como ponto de partida e ponto de chegada.

Depois de “despercebidamente”, por tantas razões, o Papa nos ter chamado a viver um ano dedicado a S. José, que terminou esta quarta-feira, nada como voltar a pôr os olhos no “homem do presépio”, para perceber que na entrega a uma causa, na aceitação dos desafios, na luta pelas conquistas, mais ou menos conseguidas, a alegria é quem sobressai como vitória no meio da adversidade. Esta luta diária e constante não se pode fazer com o repetido e continuo recurso aos psico-fármacos que nos devolvem uma “paz” falseada, como que no efeito de alheamento da realidade.

Por isso, repitam-se os sorrisos, animem-se as esperanças e reconheça-se na simplicidade do que temos, a grandeza do que somos: seres chamados à alegria!

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