São pequenas mãos que treinam grandes gestos. Na Escola de Infantes e Cadetes dos Bombeiros Voluntários da Covilhã, criada em outubro, andam 30 crianças e jovens, entre os seis e os 17 anos, que duas vezes por mês se deslocam ao quartel, de todo o concelho, para aprenderem o que é a vida na corporação e o que significa exercer a atividade.
Há os que se inscreveram pela curiosidade, outros para perceber e aprender novas competências, conviver e há quem, desde muito novo, tenha a firme convicção de que quer ser bombeiro. Enquanto não têm a idade legal para integrarem a corporação, esta é a forma mais próxima de se porem nesse lugar e também de irem consolidando conhecimentos.
O sol é impiedoso na encosta da Serra da Estrela, onde está localizado o Centro de Meios Aéreos em Cortes do Meio, que foram visitar na última atividade do ano, um dia que teve também atividades lúdicas. Ainda cedo e, em alguns casos, após uma noite longa na Feira de São Tiago, há quem tente resistir ao sono, mas por baixo das palas dos bonés vermelhos o olhar é de curiosidade sobre a forma como atua esta força de primeira intervenção, de que já ouviram falar, e que trabalha em articulação com os bombeiros. Os materiais que utilizam, os procedimentos que seguem, a sinalética utilizada.
Fardados da cabeça aos pés, em formatura por altura, os aprendizes de bombeiro escutam em silêncio as explicações e observam que nenhum pormenor pode ser descurado. Antes, o formador Paulo Januário tinha alertado para não fazerem perguntas fora de tempo, para a necessidade de serem ordeiros e de respeitar o espaço de trabalho da Unidade de Emergência de Proteção e (UEPS). Cumpriram escrupulosamente.
O comandante dos Bombeiros da Covilhã, Luís Marques, informou que a escola foi criada em outubro para aproximar as crianças do corpo de bombeiros e tentar fomentar nelas os valores e competências de um bombeiro para, se possível, quando tiverem 18 anos, quererem ingressar na corporação.
“Já tínhamos alguns infantes e cadetes, que eram sobretudo filhos e familiares de bombeiros. Agora abrimos a toda a sociedade”, realçou Luís Marques, ao NC. “Como entram mais cedo vão, com certeza, estar mais preparados, porque já levam alguns anos de formação quando chegam à idade de entrar no quadro ativo, perspetivou.
“O nosso objetivo não é que eles cheguem ao fim e queiram ser bombeiros, é inspirar-lhes o espírito de grupo, de entreajuda, o conceito de cidadania que muitas vezes falha”, reforçou Ana Raquel Nunes, que integra a equipa de sete formadores responsáveis pelo grupo.
A escolinha existe há menos de um ano e as atividades são retomadas em outubro. Nessa altura antecipa-se que o número de pequenos bombeiros venha a aumentar, tendo em conta o interesse manifestado e as pré-inscrições.
Na Escola de Infantes e Cadetes há crianças da Covilhã, mas também de Aldeia de São Francisco de Assis, do Paul, de Unhais da Serra, de Cortes do Meio e de outras localidades. A intenção foi proporcionar o acesso aos interessados de todo o concelho e os bombeiros, dois domingos por mês, asseguram o transporte para o quartel da Covilhã a quem tenha essa vontade.
Gustavo Marques, 11 anos, entrou “por curiosidade” e ainda está a tentar perceber se é um mundo que o fascina. Já Leonor Ribeiro, de dez anos, da Covilhã, “sempre quis ser bombeira” e, assim que soube que a escola ia abrir, pediu à família para ir. Não sabe de onde lhe vem esse desejo, até porque não tem familiares na corporação, mas mostra grande entusiasmo com tudo o que já aprendeu.
“Acho que os bombeiros têm o superpoder de poderem salvar vidas e sei que correm riscos, mas aprendemos que há regras de segurança para trabalhar”, comentou Leonor, que se levanta cedo aos domingos “com prazer” quando é dia de ir para o quartel.
Inês Domingos, 13 anos, de Aldeia de São Francisco de Assis, não sabe se quer ser bombeira, mas sentiu a necessidade de experimentar esse mundo de que os pais fazem parte e tentar perceber o que os motiva.
“Eles protegem pessoa e ajudam. Eu fico preocupada com eles, mas já aprendi muita coisa e que não é preciso ter tanto medo, porque há coisas que se treinam, há a segurança dos fatos, há regras e que a vida humana é o mais importante”, acrescentou.
Daniela Lima tem 15 anos, é afilhada de bombeiros e “queria experimentar”. “O que aprendemos pode ser útil diariamente na nossa vida e podemos ajudar outros em qualquer circunstância”, disse a futura enfermeira de Cortes do Meio, que destacou a importância de já todos terem conhecimentos de suporte básico de vida e se imagina a tripular ambulâncias.
Residente em Vila do Carvalho, Guilherme Baptista, de 14 anos, quer ser bombeiro desde que se lembra de ser gente. A vontade vem de “querer ajudar” e de entender que é um dever cívico. “Já aprendemos tanta coisa! Aprendemos que ser bombeiros não é só apagar incêndios”, enfatizou. “Levamos daqui muitos ensinamentos”, acrescentou.
Além de momentos lúdicos, fazem formação inicial de bombeiro, aprendem suporte básico de vida, já participaram em simulacros, aprendem silvicultura, já fizeram combate a incêndios, têm contacto com as viaturas, materiais de segurança, aprendem para que serve cada objeto, têm contacto com as tarefas de um bombeiro.
“Aprendem todas as tarefas inerentes à atividade de bombeiros. Portanto, a formação está sempre dentro também do programa de trabalho deles”, reforçou o comandante.
Entre o grupo está o filho de dez anos de Dino Pessoa, da UEPS, que soube da Escola de Infantes e Cadetes e se tem mostrado interessado. “Nesta atividade ganham responsabilidade, disciplina e conhecimento. Saberem mexer num extintor, fazerem suporte básico de vida são coisas úteis, em que podem fazer a diferença no espaço civil, como a escola, até chegar outra ajuda”, salientou o GNR.
O dia contemplou também uma visita à Casa da Floresta, na Bouça, onde aprenderam que proteger é mais do que apagar fogos. É também preservar a biodiversidade e cuidar da natureza. Seguiu-se o almoço no quartel do Paul e uma tarde de banhos na ribeira.
Ainda que seja uma brincadeira, é séria. Já sentem o peso da responsabilidade. Este jogo do faz-de-conta ensina e pode ajudar a salvar vidas. Se um dia vão vestir a farda de tamanho adulto, o tempo dirá, mas têm consciência que este período de aprendizagem não é tempo perdido.