As escadas da paciência

Poderia ser o momento ideal para repensar a mobilidade
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A. Pinto Pires

Tardaram, mas chegaram. Finalmente estão a ser construídas as escadas que ladeiam o elevador procedente do jardim da Goldra.

Obra essencial, dir-se-á! Provavelmente, talvez. De oportunidade breve, vai, por ora, constituir um remedeio ao encerramento do elevador em causa, assim como os restantes, determinado pela pandemia em curso. Mas previnam-se de alento para as vencer!

Este encerramento pode constituir um oportuno questionamento no que se refere ao plano de mobilidade para a cidade, excetuando a ponte pedonal da carpinteira, assente exclusivamente no recurso a ascensores.

Quando essa decisão foi tomada, acrescentaria de forma unilateral pela edilidade ao tempo, por certo teve as suas inspirações em casos reais, inúmeros, por esse mundo fora.

Esse ambicioso projeto, onde se insere o funicular do ramal norte, largo S. João, Rodrigo, as debilidades daí provenientes foram quase de imediato uma constante, assim como dos restantes, pelas inúmeras avarias ciclicamente surgidas e da inatividade a que os mesmos são ciclicamente sujeitos.

Citarei alguns exemplos do país vizinho, os quais conheço, inscritos em cidades com uma orografia muito semelhante à da Covilhã. Plasência, Bilbau ou Santander. Nestas localidades, o recurso utilizado foram as escadas rolantes, um método já testado em muitas outras urbes e que se tem revelado eficiente. E em funcionamento.

Atenção, estamos a falar de máquinas e, como tal suscetíveis de avarias. Estou em crer que, sendo o material escolhido de referência, e havendo manutenção adequada, talvez os meios justifiquem os fins.

De uma assentada, estamos confrontados com o facto de a mobilidade estar coarctada devido à pandemia. Provavelmente, poderia ser o momento ideal para repensar a mobilidade do caso concreto em questão, e outorgar alternativas de mobilidade mecânica.

No caso do elevador de Sº André, onde também foi implementado um enorme escadório, talvez se justificasse outra solução, uma vez que os utentes se queixam com frequência, das insuportáveis temperaturas no habitáculo, no tempo da canícula. Não há bela sem senão, mas é fundamental optar por soluções exequíveis.

Acresce ainda a memória dos lugares, impondo-se, assim deveria de ser, e exibição de uma memória justificativa, versus projeto, da obra em curso, ou resta-nos olhar “como boi para palácio” na expectativa do que aí vier. Tratando-se de obras públicas, os casos em apreço.

E ainda, aproveitar essa mesma memória para se fazer um pouco de história local! Ali foi o lugar onde, durante anos, o ferrador Morais, tratou animais e humanos e houve um célebre parque de estacionamento para o gado cavalar, asinino e bovino que traccionava as carroças impedidas de entrar no miolo urbano.

No caso de S. André, seria oportuno se fizesse referência a um provável cemitério ali existente cujas obras no local puseram a descoberto, mas sobre os achados, nada se disse ou foi divulgado, provavelmente por ausência de acompanhamento arqueológico, infelizmente, uma prática comum nas obras que vão correndo por aí, e continuam.

E já agora relembrar, quando uma construção é licenciada, dever de imediato, como determina a lei, ser colocado em local bem visível, o respetivo aviso alvará do licenciamento da obra. O “Tinte Velho” não foi disso exemplo, e o aviso só surgiu após as contestações. Apesar dos tapumes, o panorama demolidor tem prosseguido em ritmo agora acelerado.

 “Fiat lux”, que haja luz.

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