As trovoadas de Maio

Maio não deixa de ser o mês de grandes causas, de grandes temas e de grandes pessoas
0
346

Maio sempre foi o mês das flores, da primavera, de Maria, de Fátima, da Mãe e de decisões na primeira liga e de festival. Maio sempre se inicia com um hino ao trabalhador, com promessas de um verão quente, de esperanças renovadas pelas longas horas de sol e por mil e um motivos de celebração, religiosa ou pagã, que vai dando vida aos nossos meios.

Porém, Maio também sempre foi o mês das trovoadas, do incerto e do inesperado. E, mais que nunca se renova esta incerteza de Maio. A expectativa em relação ao desconfinamento gradual é grande. A observação dos dados da pandemia está na mira de políticos, economistas e estudiosos da matéria e a renovação do estado de emergência está nas mãos de quem espera pelas dicas das famosas reuniões do Infarmed.

No entanto, Maio não deixa de ser o mês de grandes causas, de grandes temas e de grandes pessoas. E apesar das sucessivas mudanças nos hábitos e no cancelamento de tantas iniciativas culturais, religiosas ou políticas, a memória de um povo faz-se pela preservação da sua identidade, marcada por datas, acontecimentos e estruturas sociais.

Não podemos começar Maio sem falar da figura do trabalhador. condição que está cada vez mais frágil e vulnerável, sobretudo pelos efeitos da pandemia, mas também pelas sub-reptícias invetivas das grandes empresas e dos investidores, que cada vez mais usam o despedimento como recurso para a retoma económica. O trabalhador é, muitas vezes e ainda, o recurso mais fácil para a estabilidade financeira de uma empresa ou de um negócio. o “sem olhar a meios para se atingir fins” continua a ser a mentalidade maquiavélica de muitas empresas e empregadores que “usam” quando dá jeito e dispensam quando lhes é mais conveniente.

As medidas sociais de apoio ao emprego, seja pelos sistemas de apoio do Instituto da Segurança Social e do próprio Estado, parecem estar a demonstrar cada vez mais a vulnerabilidade do mercado de trabalho, que tem vindo a somar pontos na taxa de desemprego.

É certo que a economia laboral se faz de contratações e despedimentos e que a cessão de prestação de serviços é uma possibilidade como outra. Tem legitimidade legal, não é proibida e nem vive daquela “caridade” próxima de quem precisa de salário ao fim do mês.

Mas tão verdade o é, também, que a dignidade dos trabalhadores tem de ser um dos pontos fundamentais das relações laborais, porque um despedimento é uma autêntica trovoada na vida e na economia de uma família. E, muitas vezes, essa trovoada prolonga-se em duro e rigoroso inverno, que atira para o domínio da pobreza um núcleo de pessoas que habita debaixo do mesmo tecto e partilha dos mesmos bens.

No dia 1 de Maio do ano passado, o Papa Francisco, falando sobre esta realidade, constatava que cada vez mais há um “trabalho precário” que tem de ser combatido. Afirmava na homilia que proferiu nesse dia que “quem não se paga o justo e não tem as seguranças sociais espezinha a dignidade humana”.

Neste tempo de tanta preocupação comum, e no Ano de S. José, declarado por Francisco, há um grito de silêncio que se tem de ouvir e que pede dignidade e preocupação para com tantas pessoas e tantas famílias em limiares de pobreza e falta de dignidade por não terem trabalho, por não conseguirem recursos para gerir as suas economias familiares.

A economia de um Estado só evoluirá quando cada pessoa, quando cada núcleo familiar possuir o essencial para a circulação dos bens, a que todos temos direito.

Comments are closed.