Beira Baixa: a Linha do nosso contentamento

A futura “linha das Beiras” poderá ser a cereja em cima do bolo se ousadia houver na sua exploração
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António Pinto Pires

6 de setembro de 1891, a Covilhã comemorou com festa rija a chegada do cavalo de ferro que haveria de nos quebrar uma interioridade determinada pelo fator geográfico, mas que o Homem soube vencer com a invenção do comboio.

A diacronia do tempo lança desafios que soubemos ou não aceitar, e o tempo histórico é bem ilustrador das vicissitudes por que tem passado a linha da Beira Baixa, LBB.

Já não chegava a interioridade! Uma linha estrutural, a quase primeira de cariz internacional, por ela haveriam de passar os comboios que iam para Madrid, através da campina estremenha, mas as contrariedades foram mais fortes e a linha chegou a ver o seu futuro comprometido, não fora a determinação de Vaz Preto, o par do reino que se bateu até às últimas consequências para que a mesma fosse uma realidade.

Sob a insistência dos “homens da Corredoura” a linha acabou por passar na Covilhã, e não pelo Ferro como se previa inicialmente! Mas chegou e avançou até à Guarda dois anos depois. Pode considerar-se uma das grandes obras monumentais do final do século XIX.

O Estado Novo, quase lhe ditou um canto de cisne a pontos de se temer o seu encerramento nos idos dos anos 60 do século XX. Outro erro colossal não se ter aproveitado a construção da barragem do Fratel, que obrigou a que o traçado da linha fosse fortemente consolidado, e não se ter tido a ousadia de repensar um novo traçado que a afastasse mais do leito do rio e a aproximasse de zonas mais povoadas.

Não obstante, e apesar do abandono a que o troço Covilhã Guarda foi votado, a linha foi-se modernizando para sul. As pontes foram renovadas tendo acabado o castigo dos 20 Km/hora, a linha foi bastante melhorada até que acabou por ser eletrificada, que a muito custo lá acabou por chegar à Covilhã. Embora para norte se temesse o “peor”.

O poder político, sem colocar de lado as advertências que nos chegavam da Europa, o investimento na ferrovia teria que ser repensado, assim como o futuro da LBB, que finalmente foi totalmente renovada da Covilhã à Guarda, conferindo-lhe potencialidades até agora inexistentes, mercê da concordância construída na Guarda.

Indubitavelmente, a LBB vai ser uma linha estrutural no contexto da exploração nacional e internacional. Cabe agora aos poderes locais pressionar para que o serviço de passageiros, estamos a falar da exploração comercial, proporcione à Beira Interior comboios com dignidade para o norte, sobretudo as tão ansiadas ligações diretas a Coimbra que só comboio pode proporcionar.

A futura “linha das Beiras” poderá ser a cereja em cima do bolo se ousadia houver na sua exploração, sem esquecer a componente turística, potenciada pelo seu traçado.

A “nova linha” está a ficar bonita, não obstante a falta de ousadia não se terem efetuado algumas retificações do traçado inicial.

Aguardamos deste vez que o “rei” já não chegue nas tão malfadadas automotoras, mas seja o alfa pendular a inaugurar o caminho ferroviário renovado, mostrando desta forma às gerações vindouras que o caminho-de-ferro é na verdade o transporte do futuro e o mais amigo do ambiente.

Viva a Linha da Beira Baixa.

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