COVI’de exemplo

Sempre nos habituamos a dar testemunho do que é lutar em cada tempo da nossa história
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A discussão pública dos últimos tempos tem sido centralizada nos descontentamentos que vários sectores do mundo do trabalho, e não só, manifestam diante das incongruências que o Governo tem vindo a revelar no que respeita às medidas de protecção contra a pandemia gerada pelo sars- cov- 2.

Todos sabemos que o estado de cansaço e saturação, perante uma situação que nos “fugiu completamente das mãos” é manifesto. Os primeiros efeitos que toda a situação gerou já foram suficientemente dolorosos para uma economia, que demorará o seu tempo a restabelecer-se, e que, pelo que se prevê, não iniciará a sua reabilitação tão rapidamente como o desejado.

As mentes estão sufocadas com o pensamento que tenta adivinhar “o que será amanhã?” e silencia-se, com pequenos “entreténs” o ensurdecedor pânico que vai na vida dos portugueses.

No entanto, cresce o ritmo da contestação diante da injustiça de uns poderem fazer e outros terem de se confinar ao seu espaço. E, por uma vez mais, lá vimos as praias da linha a abarrotar de gente, em manhãs de sol e calor, os passeios da zona ribeirinha do Porto cheios de “aproveitadores” do verão de S. Martinho e nós por cá a tentar ser responsáveis, fechando-nos em casa.

As igrejas voltaram a não ajudar a semear a esperança nas tardes de sábado e domingo, numa altura em que tanto se necessita de trabalhar a dimensão espiritual da pessoa; os restaurantes e cafés, e tantos outros serviços, ficaram impedidos de servir o bem do corpo e o prazer do convívio de quem está exausto de tanto isolamento; a cidade, uma vez mais, parou num exemplo ímpar, que deveria ensinar o Litoral, o que é lutar, com resiliência pelo bem comum.

A Covilhã, como de resto as pequenas cidades e comunidades do Interior, é exemplo desta resiliência. Sempre nos habituamos a dar testemunho do que é lutar em cada tempo da nossa história, para vencer as barreiras e nos ultrapassarmos nas nossas fragilidades.

O abandono a que tanto temos sido vetados, manifestado não apenas nas faltas de investimento e apoio estatal para o desenvolvimento das populações autóctones e crescimento, são bem visíveis nos números do envelhecimento e decréscimo demográfico que as taxas exibem.

Estamos como que num “isolamento” constante e prolongado, decretado pelos valores que se pagam em cada portagem que as nossas auto estradas nos cobram, pela falta de meios e acessibilidades como o de uma linha férrea, que tarda em se reabilitar, pela perda de um espaço de deslocação aérea e por vivermos constantemente à espera de um amanhã melhor.

Nisso somos profundamente portugueses, marcados por um sebastianismo que demora em realizar-se e que não nos garante que vejamos o quinto império a acontecer entre nós.

Mas somos exemplo! Contrariamente a outros centros urbanos, mostramos uma consciência de que também, neste tempo, é preciso, uma vez mais, sacrificarmo-nos nos nossos desejos e gostos, nas nossas vontades pessoais e merecidas, para que o tal bem maior aconteça.

Não podemos, porém, não levantar a voz contra os eventos desportivos que mostram falta de responsabilidade, contra os congressos que não se adiam, contra as manifestações que não respeitam o bem do outro e contra qualquer outra falta de cidadania, que o momento presente nos exige e pede.

A COVIlhã é um sinal para o País, mesmo que entre os concelhos onde a pandemia nos rouba a liberdade, a nossa forma de lutar contra este mal arrebatador que nos marcou o ano de 2020 é um exemplo de como se sobrevive e luta por sobreviver.

Esta semana iniciamos mais um Advento: seja este tempo litúrgico da Igreja, mais uma oportunidade para cultivar a esperança, que tanto precisamos ver brotar destas terras de solidão.

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