Covilhã é “porto seguro” para angolano baleado por engano no Brasil

Gilberto Almeida, angolano, 27 anos, foi confundido com um bandido e levou quatro tiros da polícia no Brasil. Agora recomeça a vida na Covilhã, onde estuda na UBI
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Luis Fernando Assunção

A Covilhã tornou-se o “porto seguro” para o angolano Gilberto Andrade da Casta Almeida, 27 anos. À procura de segurança, escolheu a cidade para recomeçar sua vida depois de enfrentar momentos de terror no Brasil. Há pouco mais de um ano, Gilberto passeava com uma amiga na região Sul do país, quando foi confundido pela polícia com um bandido. Levou quatro tiros, ficou preso durante 12 dias e até hoje luta para ter sua honra reparada na justiça. “Mudei para a Covilhã em busca da sobrevivência. Sabia que se ficasse lá, seria morto pelos polícias”, acredita Gilberto.

A vida nunca foi fácil para Gilberto. Sempre teve que lutar pela sobrevivência, pela vida. Nascido em Angola a 7 de Outubro de 1994, sempre quis ganhar o mundo para provar o seu valor. Ainda jovem, tornou-se missionário na Aliança Pró-Evangelização de Crianças, uma instituição não-governamental ligada à igreja. Encontrou tristezas, fome e violência nas suas andanças por África.

No Brasil para estudar engenharia

Em 2004, decidiu mudar-se para o Brasil. Ainda muito longe de imaginar que neste País viveria uma experiência que mudaria sua vida para sempre. O objectivo era estudar engenharia aeronáutica, mas acabou por ir para radiologia, uma área da saúde que usa a radiação para fins diagnósticos e terapêuticos. Para pagar os estudos, trabalhou como ajudante de cozinha e repositor de lojas, até conseguir actuar na sua área, numa clínica de ortopedia na cidade de Anápolis, Goiás. “Vivia tranquilo no Brasil, com o fruto de meu esforço e trabalho”, recorda.

Mas essa tranquilidade tinha dia e hora para terminar. Nas férias de 2020, mês de Maio, decidiu viajar para o Sul do Brasil, para rever uma amiga. A intenção era passar duas semanas na região de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Queria conhecer a praia, passar por Gramado (uma cidade turística local) e divertir-se com a amiga, a costureira Dorildes Laurindo. “Logo que cheguei, decidimos ir para Tramandaí, no Litoral. Queria muito ver o mar” recorda Gilberto. A 16 de Maio, um sábado.

“Foram os piores momentos da minha vida”

No domingo, quando regressavam a casa, a tragédia. Era de noite e o carro de aluguer, uma espécie de Uber, que tinham contratado para a viagem já entrava na cidade de Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre, quando Gilberto percebeu que o motorista que conduzia o carro aumentou a velocidade. “Não entendi o porquê de ele estar a mais de 150 quilómetros por hora. Tentei falar com ele, mas não adiantou”, relembra Gilberto. Em poucos minutos, percebeu que um carro da polícia seguia atrás do veículo.

De repente, o motorista parou o carro e correu em direcção a um matagal. Gilberto e Dorildes, que estavam no banco de passageiros do carro, não entenderam. Quando decidiram sair do carro para ver o que estava a acontecer, levaram os tiros. Segundo o inquérito policial que se seguiu, foram mais de 30 tiros dados pelos agentes da autoridade brasileira em direcção ao carro. Gilberto levou um primeiro tiro no joelho, um segundo na perna direita, um no braço e outro na coluna. Dorildes foi atingida por dois tiros no peito, um na barriga e um no braço.

“Logo no primeiro tiro caí ao chão. Os polícias chutaram-me, gritaram palavras como ‘seu capeta, negro, vai sangrar até morrer’. Eu suplicava para que parassem, que eu era inocente, um turista. Clamei para que chamassem uma ambulância”, conta Gilberto. Depois de mais violência e agressões, a ambulância chegou.  Levado para o hospital, onde ficou seis dias em tratamento, Gilberto foi encaminhado depois para a prisão, onde permaneceu mais seis dias. Depois, soube que sua amiga tinha morrido no hospital.

“Foram os piores momentos de minha vida. Primeiro, porque era inocente e estava a ser tratado como um bandido. Segundo, porque não sabia se sairia daquela situação com vida”, reconhece Gilberto. “Na cadeia, senti-me abandonado, sem ninguém para desabafar. Chorei muito e implorei pela liberdade”, diz.  “Graças a Deus, consegui passar por tudo isso. Não há outra palavra para definir que não seja milagre”, finaliza.

Leia o texto completo na edição em papel do NC.

 

Dorildes e Gilberto momentos antes de serem baleados por polícias

Um dos tiros atingiu o joelho de Gilberto

Objectivo agora é recomeçar a vida na Covilhã