Covilhã: um amor à primeira vista

Cinco histórias de famílias brasileiras que largaram tudo em seu país para recomeçar uma vida nova na Covilhã
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Luis Fernando Assunção

Famílias inteiras estão a imigrar do Brasil para Portugal à procura de mais qualidade de vida. Resultado disso é o ligeiro acréscimo populacional em 2020, que resultou de um saldo migratório de 41.274 pessoas, o que compensou o saldo natural negativo, agravado em 2020 para -38.931, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Neste cenário, o Interior é a região preferida por essas famílias, como a Covilhã, que tem ainda como atractivo uma universidade forte. “Aqui encontramos paz e tranquilidade”, resume o radialista Henrique Cesário da Silveira, 45 anos, carioca que escolheu o Tortosendo para viver com a família.

A paz que Henrique, a esposa Lúcia, 45, e os filhos Maria Eduarda, 19, e Pedro, 13 buscam eles não encontravam no Rio de Janeiro, cidade onde moravam. O casal foi assaltado duas vezes e quase não podia sair à rua com medo da violência. “No Brasil, estávamos saturados. Muita violência, muito desemprego. Queríamos repensar a vida, mudar a nossa realidade”, conta Lúcia. E a Cidade Neve foi a escolhida para a mudança radical. “Morar no Interior foi uma escolha pensada e planeada”, diz Henrique.

Depois de morar na freguesia do Ferro, o casal comprou um apartamento no Tortosendo. Nada se compara à tranquilidade do lugar. “Já não temos medo da violência. As escolas são de qualidade e nossos filhos podem andar na rua sem preocupação. Além disso perdemos poucos minutos nas deslocações”, explica Henrique, lembrando que no Rio de Janeiro chegava a ficar horas dentro do carro para ir de um lado ao outro da cidade. Ele e a esposa são funcionários públicos no Brasil, mas estão afastados do trabalho para os estudos. Mas se depender de Lúcia, não regressam ao outro lado do Atlântico. “A intenção era ficar um ano e já estamos há três em Portugal”, conta.

UBI como porta de entrada

Todas estas famílias são atraídas pelo ensino de qualidade que encontram na Covilhã. E a maioria utiliza a Universidade da Beira Interior (UBI) como porta de entrada para regularizar as suas situações em Portugal. Foi o caso do casal Hudson Peres, 35 anos, e Patrícia Peres, 34, que vieram com a família, Lilian, 12 anos, para morar na cidade. Patrícia matriculou-se num mestrado, conseguiu o visto e reagrupou a família para regularizar a situação. “Quando encontrei um nome diferente de uma universidade, Beira Interior, a Patrícia disse: é essa!”, explica Hudson.

A Covilhã foi paixão à primeira vista para a família Peres. Moradores de Natal, Rio Grande do Norte, onde o calor se faz sentir o ano inteiro, não se assustaram com o frio da Serra da Estrela. “Foi difícil no começo, mas rapidamente nos acostumamos com o clima da Covilhã”, garante Patrícia. Foram três anos de planeamento antes da mudança para Portugal. “A gente preparou-se financeira e psicologicamente. Sabíamos que seria bem diferente morar em Portugal”, conta Hudson.

O casal é videomaker e tem um canal no Youtube onde mostra as belezas da Covilhã e da Cova da Beira. Os seus vídeos são acompanhados por portugueses e brasileiros. “Muitas pessoas não sabem o quão é bom esta região para viver. Estamos a fazer essa divulgação”, explica Hudson. “A Covilhã nos adoptou. Todos nos receberam muito bem e temos uma relação de carinho com a cidade”, garante Patrícia. Metas do casal? Pedir a cidadania portuguesa e viver para sempre na região. “Brasil só para passear”, garante o casal.

“Não tem preço poder sair à rua e dizer bom dia a quem passa”

O ensino também atraiu a família Gomes Palácio para a Covilhã. Depois do filho, Lucas, 20 anos, optar pela UBI para tirar o curso de economia, William Lacerda Gomes, 49 anos, e Janis Palácio, 56, começaram a planear a mudança. Chegaram à Cidade Neve em Março de 2019. Janis veio com visto de reformada no Brasil. Moradores de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, mudaram radicalmente a vida quando começaram a viver na Covilhã. “Não tem preço poder sair à rua e dizer bom dia a quem passa. Ter o acolhimento das pessoas como tivemos aqui na cidade”, admite William.

Lucas está totalmente adaptado à vida da cidade, não apenas entre os colegas na universidade, mas também na vida social da Covilhã. William e Janis também se adaptaram com facilidade. “Já conseguimos conhecer boa parte de Portugal e por isso garanto: a Covilhã é perfeita para morar. A gente abraçou a cidade e ela nos abraçou”, explica William. O casal vive dos rendimentos vindos do Brasil e do emprego de cozinheira de Janis. Chegaram a abrir um café, em Belmonte, mas a pandemia forçou o encerramento do negócio. “Estamos muito felizes. Tenho o meu emprego, o William tem o dele. Vivemos bem e tranquilos”, finaliza ela.

Força de trabalho mais jovem e empreendedorismo são as marcas

Em 2020, segundo o INE, o envelhecimento demográfico continuou a acentuar-se em Portugal. O índice de envelhecimento, que compara a população com 65 e mais anos (população idosa) com a população dos 0 aos 14 anos (população jovem), atingiu o valor de 167,0 idosos por cada 100 jovens (163,2 em 2019). Ou seja, há quase o dobro de idosos. Além do saldo migratório positivo, os imigrantes que chegam também trazem mais juventude e renovação para as cidades do Interior.

Segundo os números do Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo (RIFA), do Serviço de Emigração e Fronteiras (SEF), há 184 mil brasileiros que vivem em Portugal. Cerca de 100 mil vieram apenas de 2016 para cá. Na região da Cova da Beira, segundo a Associação Luso-Brasileira Casa do Brasil, há mais de cinco mil brasileiros. Destes, a grande maioria está na faixa entre 19 e 45 anos, ou seja, em idade produtiva para o mercado de trabalho. Na Covilhã, só na UBI, são mais de mil brasileiros. Se contar que muitos estudantes trazem a família, pode-se multiplicar por três esse número.

Muitos desses brasileiros já estão inseridos no mercado de trabalho na Covilhã. E os que não estão, são empreendedores, com negócios próprios.

O engenheiro mecânico Gustavo Silva Reis, 45 anos, fez o caminho usual de quase todos os brasileiros na cidade. Veio para fazer mestrado na UBI e em pouco tempo conseguiu emprego. Hoje é engenheiro de manutenção numa empresa de energia renovável. “A Covilhã superou todas as minhas expectativas. Fui bem acolhido e hoje considero-me parte da cidade”, reconhece Gustavo, que vive com as duas filhas, Ila, de 19 anos, e Iris, de 12.

“Plano A é permanecer na Covilhã”

Morador de Salvador, na Bahia, Gustavo sentiu a diferença de passar de uma cidade de três milhões de habitantes para uma de 50 mil. “Buscava um lugar mais tranquilo. E a Covilhã aliou essa tranquilidade com a possibilidade dos estudos. Foi perfeito” garante. Para Gustavo, o melhor da vida local é a segurança, o acolhimento das pessoas e as oportunidades de emprego. “O plano A é permanecer na Covilhã, ser morador definitivo daqui. A minha intenção é solicitar, em breve, a cidadania”, assegura.

O casal Pedro Renan de Santana, 35 anos, e Lara Guerreiro Pires, 32 anos, também se mudou na esteira da UBI. Lara era professora em Goiânia, região central do Brasil, quando decidiu fazer um doutoramento na Covilhã. Hoje eles já abriram uma filial da empresa de tecnologia na cidade, onde pretendem ficar por tempo indefinido. “Para a minha empresa, do ramo tecnológico, o mercado de Covilhã não é grande. Mas podemos fazer a cidade de base e atender o país inteiro”, projecta Pedro. O casal trouxe dois filhos, Isadora, de 13 anos, e Daniel, de 9.

Pedro Renan e Lara sempre tiveram o sonho de morar em Portugal. Depois de admitida no doutoramento em Ciências da Comunicação pela UBI, Lara começou a arquitectar a sua vinda com a família. “Pesquisamos lugares, preços, custo de vida. A estrutura que encontramos na Covilhã foi surpreendente. É uma cidade que encanta e conquista quem chega”, diz Lara.

Expandir a empresa e mostrar aos brasileiros o potencial da região são algumas das metas próximas do casal. A intenção é trazer, em Setembro, uma missão de empresários brasileiros, participantes do Web Sumitt em Lisboa, para uma visita à Covilhã e à Serra da Estrela. “Queremos descentralizar e mostrar que também no Interior há boas possibilidades para investimentos”, conclui Pedro Renan.

Hudson, com a família: “muitos não sabem o quão esta região é boa para viver”.

Pedro, Lara e os filhos: tranquilidade para sair na rua e surpresa com serviços da Covilhã

William, Janis e Lucas: pesquisa feita para escolher Covilhã para viver

Gustavo com a filha Iris: mestrado possibilitou emprego na área como engenheiro

Lúcia, Henrique e Pedro: funcionários públicos no Brasil e licença para estudar em Portugal