António Rodrigues de Assunção
Como é habitual, o senhor primeiro-ministro, DR. Luís Montenegro, proferiu, através dos canais televisivos, de olhar sempre fixo no “teleponto”, a sua Mensagem de Natal. Mensagem que se concretizou num discurso que foi aproveitado pelo senhor Luís Montenegro para tentar motivar os portugueses para uma ambição. O País, não há meio de dar sinais consistentes e seguros de que se encaminha para a superação do seu atraso, é um facto. Mas é igualmente um facto que as chamadas elites políticas se têm mostrado consistentemente incapazes de apontar um rumo, um propósito, enfim, um desígnio mobilizador. Realmente, Portugal não tem um desígnio, suscetível de motivar a ambição dos portugueses. Mas disso não falou o senhor Luís Montenegro. Aliás, pareceu mesmo claro, a quem o ouviu com atenção, que o senhor primeiro-ministro imputa ao povo e aos trabalhadores essa falta de motivação e de uma ambição mobilizadora para algo superador do nosso secular atraso, um atraso de que são indicadores, entre outros, a persistência de elevados índices de pobreza e de risco de pobreza em pleno século XXI; a saída de centenas de milhares de jovens que, descrentes de um País sem desígnios, o deixam e vão, mochila às costas, para outras paragens, demonstrar como sabem mobilizar-se e de ter ambição; e as fissuras crescentes entre o Litoral e um Interior secularmente abandonado e entre os 10% que se apoderam de mais de 50% da riqueza nacional e que deixam os restantes 90% a caminhar para as fileiras dos deserdados.
E vai daí, encontrou então o senhor Montenegro, sabe-se lá com que artes ou inspiração sublime e rara, a chave mágica capaz de nos libertar a todos, finalmente, da nossa falheira motivação e fraca ambição. E como estas, como é evidente, também não brotam das mentes pensadoras e iluminadas do Governo, o caminho escolhido foi encontrar a solução para o mal português numa figura real, de carne e osso como nós todos, é certo, mas que, génio incensado nas tribos do «pontapé no couro» e homem de sucesso catapultado pela sua forte motivação e inesgotável e perenal ambição, será capaz de soltar a sua energia e fazê-la penetrar, em ondas contagiantes, nos corpos, nas mentes, quiçá, nas almas de cada um e de todos os portugueses. Essa figura, mítica e sobretudo icónica, encontrou-a o nosso primeiro em Cristiano Ronaldo: Ecce Homo”!

Mas, quererá indagar o leitor, teria o primeiro-ministro outra figura ou figuras de Portugal, nossos contemporâneos ou da nossa História, para a todos nos apontar como “modelo” a seguir em grandezas motivacionais e em brutais doses de ambição de que tão carenciados estamos? Ter, tinha. Mas o senhor DR. Luís Montenegro não faz as coisas por pouco: era necessário subir ao Olimpo dos 10% dos tocados e bafejados pela rara e milagrosa meritocracia e aí encontrar, qual ícone inspirador de soberba motivação e de sublime ambição, o nosso Cristiano Ronaldo. Porque o DR. Luís Montenegro não vê nos restantes 90% um, um só que seja, homem ou mulher, católico ou protestante, operário ou pequeno burguês, dotado de suficiente capacidade motivacional e de exemplar ambição para nos servir de guia neste Portugal sem desígnio. É que, ainda por cima, além de abarrotar de riqueza e dotado da genialidade futebolística que Deus lhe deu, além disso, que é quase tudo para o nosso primeiro, Cristiano Ronaldo ainda recentemente teve honras de quase estadista, ao ganhar o direito de entrar na Casa Oval, deixando-se fotografar ao lado de um presidente medíocre e polícia e juiz dos povos e de um príncipe saudita muito pouco ou mesmo nada recomendável. Mas que honra, caro leitor! Isto, temos de o reconhecer, só está ao alcance dos predestinados e dos poderosos…E foi aí, a esse restritíssimo círculo dos nossos melhores, que o senhor Luís Montenegro foi procurar.
É verdade: o senhor DR. Luís Montenegro, nesta sua Mensagem Natalícia, aplicou um valente murro na autoestima dos portugueses, esse povo pobre e historicamente abandonado pelas miseráveis elites deste País, e que além de vítima perene desse abandono, ainda é apontado pelo primeiro-ministro do seu País como incapaz, impotente para se automotivar e mobilizar por uma ambição para Portugal. Era preciso que alguém daqui, mas que está fora daqui, fosse chamado, apontado, para a missão de nos resgatar por fim da «menoridade» em que, «por culpa exclusivamente nossa» ainda hoje nos encontramos. O nosso primeiro poderia, sim, olhar para os milhares de reformados que vencem uma reforma que acaba na última ceia do dia 25 de cada mês, e que, cheios de uma infinita motivação e de uma genuína ambição, acham dentro de si a força e o amor para voltarem ao trabalho, quando deveriam estar a usufruir do sagrado direito de um usufruto feliz das suas vidas. Poderia também o senhor Luís Montenegro, recorrendo à nossa História, apontar aos portugueses o exemplo da «Ínclita Geração, Altos Infantes» que, no dealbar do século XV, liderados por governantes de inigualável estirpe, definiram para Portugal um Desígnio Nacional, que todo o povo abraçou. Mas o senhor DR. Luís Montenegro, além de, provavelmente, desconhecer a História de Portugal, não alinha nessas histórias…

