Crónica da cidade centenária

As efemérides devem servir para (…) refrescar o espírito da curiosidade e do saber
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António Pinto Pires

Estávamos na reta final da década de 70 do século XX. Ao caso pessoal, com 16 anos de idade já cumpridos. Tempos tão só de expectativas e sonhos. Numa cidade marcada por uma riqueza que se nos afigurava interminável e que respirava por todos os seus poros.

Não se via uma ruína, tão só as das fábricas que os já costumeiros fogos iam devorando, mas que pouco importavam, faziam parte da memória, mas que a própria sociedade no seu processo de metamorfose, se encarregava de resolver.

Não se falava em falta de trabalho, já que a palavra desemprego, ainda pouco ou nada constava do vocabulário costumeiro. A mono-indústria dos panos dava para tudo e para todos. A rapaziada, isto é, os que saiam da escola primária, hoje ensino básico, para que não fossem fardos nas famílias habitualmente numerosas e de fracos recursos, eram emprestados, ora para as fábricas, ora para outras áreas do saber-fazer, onde iam aprender uma profissão a custo zero. Quando muito iam para as fiações ajudar no enchimento de canelas. Na maioria dos casos, a custo zero para os “empresários”.

O importante era que saíssem da rua para que não andassem à malta, como se dizia.

Depois vinha a seriação social que tão fortemente caracterizou esta cidade que destoava de muitas ou quase todas. Com uma criadagem abundante para fazer face às inúmeras necessidades, também aqui encontrávamos as viaturas topo de gama, num contraste servil de homens e rapaziada com calças remendadas e a viver em autênticos tugúrios. Saneamento não fazia parte do vocabulário. Os contrastes eram inevitáveis e evidentes.

Mas este povo fabril com a dignidade que lhe era perene, resolvia esses problemas do quotidiano de modo a não molestar o dia-a-dia febril, que não parava nesta cidade cadenciada pelo barulho dos teares.

Saídos da escola primária, e voltamos à seriação social, os mais afortunados, iam para o liceu, os outros, a tal classe média, iam para a “Escola Industrial”, que dispunha das variantes indústria e comércio. Essa que foi o mais importante legado dos Campos Melo, com visão de futuro, prevendo que era no saber e na aprendizagem que residia o futuro desta cidade. A mesma Escola Industrial, cuja nomeada chegou aos quatro cantos do país, funcionava com ensino diurno e noturno, este que conhecia uma frequência inusitada, sobretudo numa ânsia de aprender com o móbil de se obterem lugares de destaque ou melhor remunerados nas inúmeras fábricas que povoavam a cidade. Que eram às dezenas!

Coloco-me no âmbito dos que tiveram a possibilidade de aprender nesta Escola de memória, a “Campos Melo”, onde despertei para a puberdade com a felicidade de ter encontrado gente que contribuíram para o moldar da personalidade e sobretudo curiosidade em aprender e amigos para uma vida que prezo e conservo.

As viagens, já faziam parte do meu imaginário desde tenra idade, aos quatro anos começava a minha saga dos comboios, e as mesmas viagens, que ao tempo demoravam umas 7 horas, aumentavam o meu saber proporcionando-me novos mundos e maneiras de ver. Afinal, Lisboa, era Lisboa, quando quase tudo o resto era mera paisagem…. Regressava à Covilhã, sempre carregado de ideias e novas visões, ou se calhar idealismos.

No 1º centenário da cidade da Covilhã, estávamos em 1970, foi como que uma onda de modernidade recolocando a cidade numa mapa de referências, sobretudo pela gente empenhada que deu corpo a esta efeméride, a tão afamada geração de 70, bem caracteriza pelo António Assunção, que urdiu um futuro não parando de crescer.

Não me ficou na memória o foguetório habitual e costumeiro destas ocasiões, ou as visitas oficiais do regime, mas as obras que deixaram marca como a FAEC, Feira de Atividades Económicas da Covilhã, e toda a animação que à sua volta emergiu, o surgimento do tema da Cova da Beira como potencial de futuro e de tudo o mais importante, a ideia de investimento e aposta no saber politécnico, a génese da Universidade da Beira Interior.

As efemérides devem servir para isso mesmo, ou seja refrescar o espírito da curiosidade e do saber, e há 50 anos vivíamos já em pleno a euforia do que viriam a ser as comemorações do 1º centenário. Pena que o Covid 19 tenha cerceado tudo o que estava previsto e planeado para que o 150º aniversário fosse uma efeméride de questionamento e ombreasse com a mesma.

Porém, o tempo tem destas coisas, estando em crer que os feitos a ter lugar honrem este 20 de outubro de 2020, neste tempo de incerteza e inquietude. Que o questionamento possa ser a grande ilação para o futuro. Se assim for, valerá a pena comemorar a efeméride.

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