Da esperança de aldeias vazias à vida ganha por núcleos mais urbanos

Segundo os Censos 2021 algumas freguesias chegaram a perder um terço da sua população nos últimos dez anos. Mas em núcleos mais urbanos, há gente nova a chegar
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Luis Fernando Assunção

Quem vê aquela aldeia ao longe, com seus pastos verdejantes e seu ribeiro límpido, não imagina que em breve talvez ela nem exista mais. A cerca de 40 quilómetros da sede de concelho, Sobral de São Miguel regista, a cada ano, menos famílias nas suas casas de xisto. Chegou a ter 1450 habitantes, há 50 anos, e hoje soma apenas 294 – menos três quartos da população. Nos últimos dez anos, a queda foi de 29,7 por cento, ou seja, quase um terço do total de moradores. São dados estarrecedores trazidos pelos números preliminares do Censos 2021, do Instituto Nacional de Estatística (INE).

Tradicionalmente, Sobral de São Miguel sempre foi um lugar de imigração. Muitos dos seus jovens moradores partiram da vila na década de 60, especialmente, em direcção à França, Bélgica e Suíça. Só havia emprego para quem se aventurasse por um bom número de quilómetros para trabalhar nas Minas de Panasqueira, na freguesia vizinha de São Francisco de Assis. Esse fenómeno repetiu-se com menor intensidade nas décadas seguintes, mas forte o suficiente para diminuir cada vez mais o número de moradores. “Na década de 80, os meus irmãos emigraram para a Bélgica. O meu irmão continua por lá, mas a minha irmã voltou”, conta Teresa Costa, 61 anos, que tem casa na aldeia, mas mora e trabalha em Coimbra.

A vida é difícil parar quem decidiu ficar. Na freguesia não há farmácia, não há mercado, não há padaria, não há talho ou peixaria. Só há um café. Para abastecer o frigorífico e a despensa, é preciso esperar que os vendedores cheguem uma vez por semana. O peixeiro vem na terça-feira. O padeiro na segunda e quinta. A mulher das frutas e verduras, duas vezes por semana. Escola também não há. Os três adolescentes residentes estudam na freguesia vizinha, Paul. “É uma vida difícil. Há muitas casas vazias, que precisam de reformas. Seria preciso algum tipo de incentivo para trazer mais gente”, explica Teresa.

“Continuamos a ter esperança”

A presidente da Junta da Freguesia, Sandra Ferreira, diz que já fez de tudo para reverter o declínio populacional. “Temos feito tudo o que está ao nosso alcance para melhorar a qualidade de vida de quem vive e criar condições para acolher visitantes. Infelizmente não foi o suficiente para atenuar o despovoamento”, admite. “Mas continuamos a ter esperança. Somos uma das maiores aldeias da Rede das Aldeias do Xisto, continuamos a ter nascimentos todos os anos na freguesia, e temos alguns jovens empreendedores em actividades tradicionais”.

Mas se não há tantos jovens, há muitas histórias entre os mais velhos, que insistem em viver na, segundo eles, melhor aldeia do mundo. “Moro na mesma casa onde nasci e vou continuar”, garante Isidro Domingos Pinto, 88 anos. Que emigrou para a França na década de 60. Juntou algum dinheiro, reformou-se e voltou para a aldeia do coração. Comprou a casa em que tinha nascido, cobriu as pedras de xisto e pintou de branco. “Com o dinheiro que ganhei fora, reconstruí a casa e tornei-a mais quente”, garante. Há já 28 anos que Isidro voltou para o Sobral de São Miguel.

A aldeia parece atrair de volta os seus filhos que, em tempos, foram para o estrangeiro. Henrique Pinto Geraldes, 80 anos, gaba-se das andanças pelo mundo. Morou na Índia e Moçambique até se fixar em Lisboa, na década de 70. Não havia emprego e por isso precisou de levar a família para outros lugares em busca de condições de sobrevivência. Só depois de se reformar, passou a frequentar mais a antiga freguesia. “Morava em Lisboa e passava férias no Sobral”, conta. Com a pandemia, viu-se obrigado a permanecer definitivamente na aldeia. Ele e a mulher, Jutília Santos Paulo, de 83 anos, deixam o tempo passar a admirar o velho casario de xisto que traz lembranças da infância. “É a nossa casa”, finaliza, em tom nostálgico.

Proximidade à sede de concelho dá novos moradores à Boidobra

Se os Censos trouxeram números desanimadores para muitas das freguesias, algumas delas estão a comemorar. É o caso da Boidobra, que viu reduzir sua população nos últimos dez anos em apenas 2,2 por cento, passando dos 3.246 habitantes em 2011 para 3.173 em 2021. Uma pequena queda no número de habitantes que é explicado pela proximidade que a freguesia tem da sede do concelho e por oferecer todos os aspectos básicos, como educação, saúde e lazer à sua população.

A família Pereira morava no Refúgio e há seis anos mudou-se para a Boidobra. Escolheram o lugar pelo maior contacto com a natureza, mais possibilidades de lazer para as crianças e pela tranquilidade do dia-a-dia. Reside numa ampla vivenda ao fundo do Parque Duppingheim, cercada de verde e própria para a criação de animais de estimação e a plantação de hortaliças. “É uma casa próxima de tudo e ao mesmo tempo isolada. Fomos bem recebidos na freguesia e foi um acerto mudarmos para cá”, reconhece o técnico em cardiopneumologia Alexandre Pereira, 43 anos.

Alexandre vive na Boidobra com a mulher, Marisa Rocha, e com as filhas Camila e Matilde. Uma delas estuda na Boidobra e outra na Frei Heitor Pinto, na sede do concelho. Já inseridos na vida quotidiana e cultural da freguesia, Alexandre faz parte da direcção do Rancho Folclórico da Boidobra e Marisa é presidente da Associação de Pais. “Temos cá um senso de comunidade, há espaço para fazer exercícios ao ar livre, as ruas são planas para andar de bicicleta”, enumera Marisa. Sem contar com a proximidade com os serviços da sede do concelho. “Dá para ir a caminhar até à Covilhã e isso é muito bom também”, conclui Alexandre.

“Temos emprego e qualidade de vida”

Apesar de haver sempre uma tendência de despovoamento, mesmo nas freguesias com melhores estruturas e acessos, a Boidobra tem uma série de atractivos que a deve manter entre os locais que menos perdem moradores. Na freguesia está localizada a fábrica têxtil que é maior empregadora da Covilhã, a Paulo de Oliveira. E há também um crescente número de novos edifícios de apartamentos, principalmente na zona da Alâmpada, onde também estão localizados prédios de habitação social. “Temos emprego e uma qualidade de vida sem igual. São aspectos que atraem as pessoas”, garante o presidente da Junta da Freguesia, Marco Gabriel.

Segundo ele, actualmente a Boidobra tem uma grande população de pessoas mais novas e mais qualificadas. Que estão empregadas não apenas na freguesia, mas em outros lugares da Covilhã. Mesmo que haja ainda um forte movimento migratório, já não fazem parte das famílias tradicionais, mas de pessoas que vieram morar no local há mais ou menos 20 anos, e que não impactam tanto na população total. “Pelo contrário, temos muitos casais jovens que escolhem a freguesia para viver e se estabelecer”, finaliza Gabriel.

Todas as freguesias do concelho perderam moradores

Das 21 freguesias do concelho da Covilhã, todas tiveram perdas de habitantes os últimos 10 anos. As que mais perderam, além de Sobral de São Miguel, que perdeu 124 pessoas, foram Casegas e Ourondo, que passou de 797 (2011) para 598 (2021), ou -25 por cento, Unhais da Serra, que tinha 1.398 (2011) e agora tem 1.050 habitantes, ou -24,9 por cento, e Verdelhos, que contava em 2011 com 664 moradores e em 2021 tem apenas 500, uma perda de 24,7 da população total.

As freguesias que mais perderam habitantes são as mais distantes da sede do concelho. Na outra ponta da lista, estão as que se situam bem perto da Covilhã e que, por isso, levam vantagem, como o caso da Boidobra, que encolheu apenas 2,2 por cento, passando de uma população de 3.246 (2011) para 3.173 (2021), ou do Tortosendo, que perdeu 7,2 de sua população, dos 5.624  (2011) para 5.219 (2021).

A tendência de diminuição da população atingiu também o distrito de Castelo Branco, que perdeu 18.352 pessoas nos últimos 10 anos. O concelho de Covilhã perdeu 5.344 pessoas. Em 2011, havia no município 51.797 pessoas e hoje há 46.453 pessoas. Foi a maior perda no distrito. Depois, Castelo Branco, que passou dos 56.109 (2011) para 52.272, 3.837 pessoas a menos. No Fundão, a redução foi de 2.692, quando havia 29.213 pessoas em 2011 e hoje são 26.521.

Portugal registrou em 2021 uma população residente de 10.347.892 pessoas, menos 214.286 residentes do que em 2011. Foi, segundo o INE, a maior redução populacional dos últimos 50 anos.

 

Dados preliminares Censo 2021 – Instituto Nacional de Estatística (INE)

Freguesia Total 2021 H 2021 M 2011 Total 2011 Perda
Sobral de São Miguel 294 135 159 418 -29,7
Casegas e Ourondo 598 262 336 797 -25,0
Unhais da Serra 1.050 490 560 1.398 -24,9
Verdelhos 500 259 241 664 -24,7
Vale Formoso e Aldeia do Souto 616 284 332 814 -24,3
Aldeia de S. Francisco de Assis 490 228 262 632 -22,5
São Jorge da Beira 501 238 263 633 -20,9
Cantar Galo e Vila do Carvalho 3.211 1.548 1.663 3.974 -19,2
Erada 574 292 282 709 -19,0
Orjais 663 323 340 806 -17,7
Barco e Coutada 724 329 395 879 -17,6
Paul 1.365 647 718 1.624 -15,9
Cortes do Meio 748 355 393 884 -15,4
Peraboa 817 362 455 953 -14,3
Teixoso e Sarzedo 3.877 1.851 2.026 4.490 -13,7
Peso e Vales do Rio 1.255 597 658 1.411 -11,1
Dominguizo 1.018 506 512 1.119 -9,0
Ferro 1.552 756 796 1.700 -8,7
Tortosendo 5.219 2.520 2.699 5.624 -7,2
Covilhã e Canhoso 18.208 8.515 9.693 19.022 -4,3
Boidobra 3.173 1.560 1.613 3.246 -2,2

Sobral de São Miguel perdeu um terço da população nos últimos dez anos

Boidobra, apesar da perda de 2,2 por cento da população, continua recebendo novos moradores

Teresa mora em Coimbra e tem vivenda na aldeia Sobral de São Miguel

Família Pereira escolheu Boidobra pela tranquilidade e pelas áreas verdes

Isidro imigrou para a França na década de 60 mas voltou a Sobral quando reformou-se

Jutília e Henrique nasceram na vila, moraram no estrangeiro mas voltaram à terra natal