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Debuxador da Covilhã ajudou a abrir as portas de Abril

O então furriel António Sena, com 22 anos, integrou a coluna liderada por Salgueiro Maia e escoltou a chaimite Bula, após a rendição de Marcello Caetano, até ao Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas

Era debuxador “nos Pimentéis”, mas foi com o fio da esperança como possibilidade, e o fim da guerra colonial como principal motivação, que António Sena, agora com 73 anos, ajudou a desenhar um padrão diferente de sociedade, quando, há 50 anos, integrou a coluna militar de Salgueiro Maia que deu o primeiro passo para depor o antigo regime.

O covilhanense, furriel miliciano e instrutor na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, fez parte do grupo que sacudiu o medo de falhar, um mês depois do golpe das Caldas não ter resultado, e ajudou a urdir o tecido com que se pavimentou a restauração da democracia em Portugal. Data que todos os anos celebra junto dos mesmos companheiros.

António Sena, durante toda a vida ligado ao associativismo e ao basquetebol, ficou no primeiro lugar no curso de atirador de cavalaria, o que lhe permitiu dar instrução e evitar a ida para a guerra colonial, o destino de quase todos os que formava e motivo geral de descontentamento.

Estava há dois anos na tropa, integrava o esquadrão de instrução, comandado por Salgueiro Maia, e soube antes da maioria que a noite seguinte podia ser determinante para as suas vidas. Para o bem, ou para o mal. De manhã, ainda sem saber do que se tratava, prepararam os carros para sair, mas antes de ir jantar já tinha conhecimento que o destino seria Lisboa e avisou um casal de amigos escalabitano.

Após ouvirem a primeira senha na rádio foram às casernas chamar os militares para um auditório e foi aí que “o Maia” fez o discurso galvanizador em que se propôs acabar com “o estado a que isto chegou”. Todos se voluntariaram e formaram na parada. O magnetismo do capitão era inspirador. “Era respeitado. Tinha uma personalidade e um ascendente que levava os outros a segui-lo”, considera António Sena. “Ninguém foi obrigado a ir, mas todos queriam ir. A dificuldade foi escolher 240” e o critério foi selecionar quem estava há mais tempo na tropa, “porque havia os que mal sabiam pegar numa arma”.

Tinha como missão, no 3.º pelotão de atiradores, com 20 pessoas, impedir o acesso ao Terreiro do Paço desde a Rua do Ouro e a Rua Augusta. De quico na cabeça, munido de uma G3, uma pistola e duas granadas à cintura, subiu “à Mercedes”, camião de transporte de tropas, onde a introspeção e a expectativa imperavam. Iam cabisbaixos. Com a incógnita no horizonte.

Com um carro à civil na frente da coluna de 25 veículos, a entrada em Lisboa decorreu sem contratempos. A polícia de choque com que se cruzaram não os mandou parar. Tomaram posições e, à medida que a cidade acordava, foram sendo interpelados, explicavam que se tratava de um golpe militar e pediam para as pessoas se afastarem, mas cada vez se juntava mais gente.

Sena tinha “alguma mobilidade” e foi algumas vezes ao Terreiro do Paço, mas não se apercebeu dos momentos de maior tensão da operação Fim do Regime, ali e na Rua do Arsenal, quando os militares revoltosos estiveram na mira de uma fragata e quando um cabo se recusou a obedecer à ordem de disparar.

“Sentimos logo o apoio do povo”, com quem confraternizavam enquanto esperavam pelos desenvolvimentos. “As pessoas não estavam assustadas, só depois, no Carmo, quando houve a rajada. As pessoas sentiram que os militares estavam ali para fazer qualquer coisa em prol delas e todas as pessoas sofriam com a ditadura, estavam fartas da guerra, sabiam que os filhos iam lá parar”, acrescenta António, sentado na sua sala no Bairro do Rodrigo, com uma camisola da Federação Portuguesa de Basquetebol vestida.

Não se percebia muito de política, porque não se podia falar de política em público, refere o militar de Abril, mas o descontentamento era notório e ficou surpreendido com a “adesão tão forte do povo ao movimento”.

Ao final da manhã perceberam que os ventos eram de vitória e que o objetivo era irreversível. A coluna foi dividida em duas. Uma parte para o quartel da Legião Portuguesa, a outra para o Quartel do Carmo, para onde se dirigiu o covilhanense, dentro da cabine, com muitos civis em cima e agarrados ao camião onde seguia.

Foi no Chiado que começou a ver vários cravos, sem perceber o motivo. O caminho para tentar a rendição de Marcelo Caetano e dos ministros que aí se refugiaram foi feito em marcha lenta, pelo meio de uma multidão que saiu em massa à rua e tornou o golpe militar numa revolução que “já era invencível”.

O jovem militar, com o curso de debuxador feito na Escola Industrial Campos Melo, levava ração de combate, mas, durante as horas passadas no Largo do Carmo, a população ofereceu pão, chouriço, presunto, “tudo e mais alguma coisa”.

“Se o povo não tivesse saído à rua, as coisas podiam ser diferentes. Se abrissem fogo contra nós, podia haver uma matança. Mas as pessoas abraçavam-nos, ovacionavam-nos, subiam aos carros, havia alegria na rua. Não era o ambiente que esperávamos quando saímos de Santarém. Quem é que estava à espera de uma coisa daquelas? Ninguém!”, exclama António. As coisas estavam “a correr bem”, mas a rendição tardava. Nesse período, era difícil conter a população, espalhada e empoleirada por todo o lado, por vezes a cantar o hino nacional.

Quando, ao final da tarde, Marcelo Caetano se preparava para sair, havia muita agitação, os militares fizeram um cordão para que a chaimite saísse e António Sena saiu do Carmo a escoltar a Bula até ao Posto de Comando, na Pontinha.

Numa página onde lia incerteza e risco, ajudou a escrever História. “Fizemos uma coisa que o povo português ambicionava, por isso é um momento muito marcante na nossa vida”, afirma. Pernoitou no Colégio Militar e, ao final do dia, sentiu “um alívio muito grande”. “Era para o que desse e viesse. Correu bem, como podia correr mal”, acrescenta.

Quando regressaram a Santarém, foram recebidos “em apoteose”. Só nesse dia falou ao telefone com familiares. Mas, depois de terem desbravado caminho para o dia inicial, a vida seguiu normalmente no quartel e depois fora dele, onde o debuxador ainda ficou até ao início do ano seguinte.

“O Maia incutiu-nos que os militares não queriam tomar conta do poder. Queriam criar condições para que houvesse um Governo eleito democraticamente”, vinca. Na vida civil vendeu livros, trabalhou na construção civil, numa empresa de máquinas, até regressar aos lanifícios, na Penteadora, onde esteve mais de vinte anos.

Nunca se quis “meter na política”. Considera que os eleitos tendem a olhar para o seu umbigo e a esquecer quem os elegeu. Sempre votou, no partido que, em cada momento, lhe parece a escolha mais adequada.

Sente ter feito “parte de um momento histórico” e tem orgulho nisso. O receio de retrocessos está presente, admite que nem sempre as coisas correm como o idealizado e defende que o que existe “é uma democracia para aperfeiçoar”, sem “deixar cair” conquistas, como o SNS.

Enquanto observa, com os olhos claros, a cópia que lhe foi entregue há 50 anos do Relatório da Operação Fim de Regime, escrito em 29 de abril “pelo Maia”, um documento com uma capa em verde desmaiado e com as folhas que o tempo amareleceu, não tem dúvidas de que ajudou a construir “um Portugal diferente”.

Em meio século, afirma nunca ter sido chamado a participar em qualquer evento oficial na Covilhã alusivo à data ou para relatar o que viveu. As suas memórias serviram para a filha e os netos fazerem trabalhos para a escola. A convite do município de Santarém, como habitualmente, vai participar nas comemorações, uma saída do quartel e regresso simbólicos. Este ano, em Lisboa, volta a integrar a coluna liderada por Salgueiro Maia, numa recriação histórica agendada para esta quinta-feira.

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