Depois das eleições na Covilhã

A opinião e a participação cívica são um direito universal, mas temos igualmente obrigação de conhecer as nossas capacidades
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Carlos Madaleno

Deveria ser este artigo um pretenso rescaldo das recentes eleições o que logicamente me obrigaria a esperar até a noite de domingo para o poder redigir. Porém, neste concelho de brandos costumes onde floresce a previsibilidade, decidi antecipar-me alguns dias e escrevi-o na passada quinta feira. Caso os meus dons divinatórios não funcionem na sua plenitude e a exatidão dos fatos descritos não seja a melhor, peço ao estimado leitor que o considere como vítima de surpresa eleitoral.

Bordalo Pinheiro, em 20 de novembro de 1879, publicou no jornal “O António Maria” uma caricatura com o título “Depois das eleições na Covilhã”. Ali se via o candidato da situação, Pinheiro Chagas queixando-se de lhe terem roubado o balão, uma alusão à derrota que lhe foi infligida por António Pessoa de Amorim Navarro. Não me parece que hoje o Dr. Vítor Pereira se possa queixar de semelhante ação, pois decerto não lhe roubarão o balão, isto é a Câmara Municipal.  Teve de enfrentar uma direita dividida e, por isso, enfraquecida, apesar da elasticidade dos seus líderes capazes de pular de apoio em apoio, partido em partido, movimento em movimento, devolver e retomar cartões de filiação e mais um sem número de malabarismos que não vale a pena referir. Ainda mais à direita um movimento ou partido demasiado Curto, em todos os aspetos, não constituiu ameaça nem para ele, nem felizmente para a nossa democracia, provocando, contudo, dano na imagem da Covilhã e dos covilhanenses. É certo que a opinião e a participação cívica são um direito universal, mas temos igualmente obrigação de conhecer as nossas capacidades quando se trata de servir os outros.  À esquerda debateu-se com uma CDU que há muito carrega o estigma da opinião que um voto neste partido é um voto perdido.

Por outro lado, para as freguesias o partido presumivelmente vencedor esmerou-se em encontrar candidatos, verdadeiros profissionais da política, como diria o povo, paus para toda a bandeira. Enfim! Hoje outras palavras se levantam e os valores leva-os o vento.

Seja como for, não dou por perdido o tempo despendido no ato eleitoral. Mais que não fosse pela árdua conquista que foi este direito. Recorde-se que no nosso país apenas existe há perto de 50 anos. A Primeira República e o Estado Novo adiaram a aplicação do sufrágio universal que já existia em França e na Suíça desde 1848 e até na Espanha monárquica desde 1890.” Em 1911 o voto era exclusivo para homens que soubessem ler e escrever, com mais de 21 anos e chefes de família.  Afirmou por esta razão Sampaio Bruno que, “da exclusão dos analfabetos nasceria uma república dos 20% ou teríamos somente 20% de república. Justificava este fato um deputado eleito pela Covilhã, grão-mestre adjunto da maçonaria, José de Castro “o nosso povo ainda não tem a alta compreensão dos seus destinos nem uma ilustração correspondente a essa forma de governo.” Na minha perspetiva prefiro acreditar na afirmação do presidente da república em 1974, Costa Gomes “votar é colaborar, não votar é trair o povo.”

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