E como vai a família?

Vão (as famílias) perdendo chão, perdendo norte e com isso perdendo a identidade
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É pergunta habitual nos nossos fugazes encontros, cada vez mais digitais e distantes: “como vai a família?”. É como que um estender a amizade e o cuidado para com quem nos cerca e nos preocupa, mesmo que às vezes a questão não manifeste assim tanta preocupação, seja só um preceito de educação ou um encher a conversa.

Mas nestes tempos, depois de um ano de grandes desafios e da experiência de dois confinamentos, é mesmo caso para nos questionarmos, como vivem hoje, com que “saúde” estão as nossas famílias?

O Papa Francisco decretou que desde a passada sexta-feira, 19 de Março, a Igreja se relançasse para viver “um ano especial para crescer no amor familiar” e a oportunidade para relançar o tema no catolicismo e no mundo. O Ano da Família ‘Amoris Laetitia’ surge cinco anos depois da assinatura deste documento, no qual Francisco quis redespertar a Igreja para este tema nuclear da vida eclesial, por nele se semear o evangelho e se ensinar a moral que deve pautar os nossos valores.

Tenho cá para mim que Francisco bem compreendeu que a Igreja não deu o verdadeiro valor ao que se trabalhou naqueles sínodos de 2014 e 2015. E, por isso, quis relembrar, em tempos tão desafiantes e únicos para a vida familiar, como é importante a releitura e interpretação do que a Igreja faz como proposta para a vivência da família.

Ele próprio o afirmou na oração do Angelus do passado domingo: “Rezo para que cada família possa sentir na sua casa a presença viva da Santa Família de Nazaré, que preenche as nossas pequenas comunidades domésticas de amor sincero e generoso, fonte de alegria inclusive nas provações e nas dificuldades”.

Não creio que Francisco esteja “aliado” dos verdadeiros dramas que hoje consomem cada lar e cada família. As contas do fim do mês, a imprevisibilidade do amanhã, a escassez de recursos, a queda numa situação económica frágil ou até a indigência são as dores do Papa. E é por isso que, tendo dedicado às famílias este magistral documento de reflexão, apoio e instrução, o Papa pede que nele fixemos, uma vez mais, o nosso olhar, para que não faltem razões de esperança a quantos vivem novos dramas, nunca experimentados, pela novidade do tempo presente.

As situações de degradação, seja do ponto de vista económico ou financeiro, as fragilidades que muitas vezes brotam em conflitos e violências, as simples “separações” motivadas pela cautela ou pelo distanciamento social que nos é recomendado, têm trazido consequências inevitáveis às realidades familiares.

Não esqueçamos os lutos, as irreparáveis perdas seja por tantos outros motivos, seja pela crueldade de se ser vítima desta covid-19, que silenciosa e injustamente entra na casa de tantas famílias e leva a perdas insubstituíveis. Esta é a consequência mais nefasta da pandemia: para além da morte provocada, deixa ainda um sentimento de impotência e injustiça para as famílias e um luto que nem na expressão de uma despedida digna se pode começar a fazer.

E é assim que vão as nossas famílias… perdendo chão, perdendo norte e com isso perdendo a identidade.

Não se trata apenas de celebrar o Ano da Família com expressões de exaltação pelo Amor que nelas se consagra. Este Ano Especial para a vida dos católicos é o Ano do desafio, da atenção e do acolhimento para com a fragilidade que se esconde entre quatro paredes e à qual se tem de prestar atenção, não apenas como sinal de boa educação, mas de verdadeiro espírito e compromisso social, do Estado, das Instituições e em particular da Igreja.