É de resiliência que se trata

A responsabilidade individual e o compromisso comunitário é que nos poderão salvar
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Até há bem pouco tempo, usávamos como sinónimo de bravura e capacidade de resistência palavras como “paciência”, “coragem”, fortaleza”, “determinação” e verbos que indicavam essa mesma força, tais como suportar, aguentar ou resistir. Mas de há uns tempos a esta parte surgiu um novo vocábulo que se tornou verdadeiramente conhecido e usado, agora ainda mais, depois das declarações da Ministra da Saúde, para qualificar ou desqualificar os profissionais de saúde, diante da grande crise que se faz sentir no SNS e da guerra feroz que se trava contra a pandemia provocada pelo Covid-19.

Não nos compete fazer interpretações ou julgamentos sobre as declarações da senhora Ministra, nem sobre as lágrimas com que se tentou “redimir” do discurso inflamado que provocaram uma onda de repúdio na opinião pública. Mas não podemos deixar de pensar sobre tudo o que ele levantou, como reflexão e análise daquilo que temos vivido desde Março de 2020 e que agora nos exige mais.

É preciso uma grande capacidade de resistência e dose extra de paciência para suportar todos os constrangimentos que advêm da pandemia instalada. Os efeitos nefastos e dolorosos pelos quais já passaram tantas empresas e consequentemente tantas famílias, tantos sectores da actividade económica, incluindo o nosso do dever informativo, parecem estar além das forças humanas, pelo menos no ritmo a que vivíamos e estávamos habituados.

Exalto o trabalho e dedicação dos profissionais de saúde, seja pela forma como tiveram de aprender a lidar com um problema de saúde pública completamente desconhecido e nunca estudado nos livros da faculdade, seja pela bravura com que desempenham esta luta em favor de todos. Mas não posso deixar de lembrar a resiliência e esforço de tantos anónimos que têm sido grande suporte, nos mais variados meios de acção, para que as coisas não se tornem piores.

Mas além disso, não deixa de me surpreender que um membro do Governo peça isto aos outros, quando ele mesmo, o Governo que em “gestão enfraquecida” não é capaz dessa resiliência e do esforço para que o País não tenha que passar por mais um processo eleitoral, com tudo o que isso implica, e sobretudo, no meio do caos que se apresenta ou avizinha.

A resiliência, além de todos, é dos cidadãos, que têm de continuar a reinventar-se nas suas novas formas de vida, que têm de conseguir uma nova capacidade de organização pessoal e familiar, que têm de criar constantemente novas dinâmicas para poderem resistir aos nefastos efeitos deste tempo difícil e penoso.

Com as novas medidas que esta semana nos são “impostas” como combate, mais uma vez iremos ver um bom número de sectores da actividade económica a ter de buscar na resiliência a solução para as contas do fim do mês e para as obrigações fiscais, os compromissos financeiros e uma gestão feita a partir do nada.

E ainda há que ressaltar a resiliência de quantos se têm esforçado por ser cumpridores e cuidadosos, de quantos têm vivido longe dos seus âmbitos familiares, de quantos se têm dado a estar presentes numa distância necessária, de quantos cumprem a higienização e a etiqueta respiratória, diante de tantos outros que ainda consideram o Sars-cov 2 como uma gripe igual a outras.

São intoleráveis comportamentos como o não cumprimento dos isolamentos depois do contacto com infectados, são intoleráveis os “ajuntamentos” desmedidos e sem qualquer protecção, são inconcebíveis, neste momento, os convites a um consumo desenfreado que atraem multidões… Aqui é que é precisa a resiliência de cada um para evitar o mal maior e não contribuir para o piorar de um problema.

A responsabilidade individual e o compromisso comunitário é que nos poderão salvar de um novo e doloroso tempo de angústia que nos assombra. É preciso resiliência, mas sobretudo consciência real do que é um problema comum.