E o que importa o espírito?

A vida espiritual não precisa de templos para que aconteça
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É sobejamente conhecido que estes tempos de confinamento têm feito despertar novas formas de doença psicológica ou psiquiátrica, na grande maioria delas provocadas pela impotência, pelo stresse e pelas ansiedades ou pela incapacidade de gerir as questões laborais com as relações e gestão da rotina familiar.

É difícil assumir que não nos faça falta o café do bairro e o sorriso dos que se cruzam, mesmo que fugazmente connosco, na rua que palmilhamos a medo.

A este dado junta-se ainda o “mal- tratado” corpo que se alimenta erradamente, que quase não se movimenta e que vai desenvolvendo novas patologias, que não recebem diagnóstico porque o SNS não consegue dar resposta nem sequer às muitas consultas da medicina familiar.

Tudo isto vai contribuindo para uma acelerada degradação da nossa dignidade, de forma tão rápida e voraz como a aceleração da nossa sociedade, que vinha já acontecendo, mas da qual não nos apercebíamos, porque como escreveu Francisco naquele 27 de Março em que rezou pela Humanidade, “vivíamos num mundo doente a pensar que eramos saudáveis”.

E no meio desta impotência constatada, que dura há um ano, quando as igrejas de forma totalmente inédita fecharam portas abriu-se um outro fosso, porque afinal tudo faz falta, mesmo ao que se afastaram dos caminhos da fé. Faz falta o ritual do domingo de manhã, às nossas aldeias, faz falta a programação e projecção de casamentos e batizados, faz falta a procissão dos passos a correr as ruas de domingo à tarde, faz falta a fé que vive de afectos e que sem eles perde algo da sua essência.

É por isso que cada vez mais é urgente e necessário um cultivo de uma vida espiritual, enquanto processo de crescimento para a maturidade. A vida espiritual não precisa de templos para que aconteça, nem de rituais comunitários para que exista. Ela não se faz de fórmulas rígidas, que nos levam a pensar que ao rezarmos desta ou daquela maneira estamos a errar. Isto porque na vida espiritual, com um erro, um esforço mal sucedido damo- nos conta de que um erro espiritual é coisa que não existe: basta que tenhamos a certeza de que cada erro se transforma em ganho.

O trabalho espiritual ajuda-nos a compreender que o processo é tão importante, para a qualidade de vida, quanto a produtividade. A maneira como encaramos a vida é tão importante para o seu resultado final como aquilo que fazemos enquanto vivemos. O facto é que muito poucas coisas podem, realmente, ser forçadas antes do seu tempo.

E, no tempo da impotência, é urgente apreciar a diferença entre o nosso tempo e o tempo de Deus, para nos tornarmos pessoas espirituais. O tempo de Deus é o que nos prepara para funcionarmos bem no nosso tempo, seja na nossa mente seja no nosso corpo.

É fácil, por exemplo, ser-se «espiritual», quando nada nos desencoraja nem testa o nosso ânimo, nem põe à prova as nossas emoções. Mas é precisamente a experiência do desencorajamento, nos nossos esforços, que nos pode fortalecer o suficiente para lidarmos bem com aquilo que esperamos, seja o que for. Testar os nossos espíritos – ter que verificar os nossos impulsos, uma e outra vez – ensina-nos, finalmente, a controlar a nossa ira ou a abafar a nossa luxúria. É a dor da perda que nos ensina que nada se perde realmente; simplesmente, tem de ser encontrado de outras formas.

Viver a vida espiritual significa aprender a «forrar-nos de paciência», como diziam os antigos. Significa aprender a esperar que todas as nossas necessidades sejam respondidas no tempo de Deus – e, de certa forma, que todos os nossos desejos sejam satisfeitos; de certa forma, que todas as nossas esperanças sejam preenchidas; de certa forma, embora não necessariamente da maneira como nós próprios teríamos feito.

Esta é a notícia de hoje: importa cultivar o espiritual enquanto se espera pelo fim da pandemia.

 

 

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