Entre a fé e a vacina

A luta entre razão e fé não é localizada, mas contínua
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Embora a discussão se tivesse iniciado na época medieval, foi desde que se inaugurou o pensamento moderno, e todo o discurso cartesiano, que a dialética entre a ciência e a razão se fizeram assunto e motivo de muitas deliberações mais filosóficas ou assertivas.

A discussão foi crescendo de tom e as posições mais extremistas chegaram mesmo a declarar a “morte de Deus” ou a excomungar os de pensamento infiel. Talvez, das muitas posições que se tomam na discussão do assunto, a de João Paulo II será a mais acertada e tolerante, quando afirma que “a fé e a razão são as duas asas com que voa o espírito humano”.

De facto, o homem, aberto ao transcendente não pode, de forma alguma viver única e exclusivamente dessa relação com a divindade como suporte único e garantia de acesso a tudo quanto necessita. Assim como inverso, quando a racionalidade se faz o “deus” da nossa humanidade há emoções e sensibilidade que ficam comprometidos no processo do desenvolvimento integral da pessoa.

Diante desta pandemia que nos afecta, a discussão sobre o vírus, a sua génese e forma como se propagou assim como a sua cura, colocou novamente esta questão no pensamento humano. Não se geraram conflitos entre a religião e a ciência, apesar de algumas mentes mais tradicionalistas e extremistas de ambas as partes irem marcando posições sempre susceptíveis de apreciação e discussão.

É certo que o homem dominou o mundo, através do progresso tecnológico e científico, no entanto, ainda não consegue dominar as suas paixões e interesses particulares. E é aí que entra o papel e o lugar da fé, que orienta, que cria fundamentos e valores, que desenvolve afectividades e convicções e ajuda o espírito a ir mais longe do que as provas científicas lho permitem.

Com efeito, a luta entre razão e fé não é localizada, mas contínua, já que sempre há pessoas de pensamento esclarecido, esclarecimentos e resistência a esses esclarecimentos. Quando a razão se impõe, torna-se um dogma incutido. Numa linguagem hegeliana, uma tese que se torna antítese e necessita já de uma síntese para que a razão desdobre a si mesma. Já a religião ou fé que busca em Deus razão e princípio de todas as coisas, quando observada em dogmas unilaterais não pode ser construtora de fraternidade, incorrendo até no perigo de se tornar fundamentalista.

Neste tempo em que a vacina que promete combater a pandemia gerada pelo covid-19 é o assunto do dia, é bom observar esta realidade como um acto heroico do mundo científico, que em tão poucos meses desenvolveu o antídoto que nos ajudará a vencer.

Independentemente da cientificidade e dos efeitos colaterais que esta vacina venha a ter, os homens que acreditam e pela fé buscam a Vida como bem supremo, não podem se não dar graças pelo desenvolvimento científico.

No entanto, e ouvindo os muitos especialistas que nos têm orientado neste percurso pandémico, não podemos observar este desenvolvimento científico como um a cura garantida. Este é o primeiro passo.

Sob pena de criarmos a falsa segurança de que em breve tudo voltará à normalidade, não é de mais apelar às nossas convicções, baseadas na fé e na esperança, para continuar o respeito por todas as normas de higiene e sanidade públicas, até ao dia em que elas não sejam uma obrigação pesada e causadoras de tantos constrangimentos.

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