Entre um Bispo que sai e um Governo que entra

Aqui seguimos nós à espera de que alguém encontre o rumo certo para que se nos criem as condições de que tanto necessitamos
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Esta semana fomos confrontados com a notícia de que o Bispo da Guarda irá pedir a sua resignação ao Papa. A notícia fez furor nas redes sociais e foi vista como se de uma novidade sensacionalista se tratasse.

De facto, poderia sê-lo para quem não conhece os tramites da lei canónica, mas deixa de o ser quando percebemos que, aos 75 anos de idade todos os que exercem a missão de bispos, seja em que cargo desempenharem, têm de apresentar essa resignação ao Papa, que a poderá aceitar ou não.

Sabemos que a Igreja Católica vive um momento de tensão e de redescoberta de si mesma. O Papa tem desafiado todos a que colaborem neste processo e possam dar um contributo válido a esta regeneração dos que desejam seguir a proposta dos que vivem a fé católica. E todo este processo é uma aventura e um desafio, não apenas para padres e bispos, mas para todos, porque afinal a Igreja é o grupo dos que se movem pela mesma fé e não apenas uma hierarquia considerada “obsoleta e retrograda”.

Por isso, não surpreende a mudança de um bispo que depois de 17 anos, cumpridos no passado domingo dia 16 (daí o surgimento da notícia), surja a cumprir o que o Direito Canónico impõe como regra. E também por isso há algo de fake nesta notícia, que deixa de o ser.

Mas se há um Bispo que sai, a partir do dia 6 de Novembro em que cumpre a idade de sair, há um novo Governo que entra, já nos próximos dias, para assumir os destinos de um país, que ele mesmo precisa também de uma grande renovação.

A euforia dos múltiplos debates que nos preencheram os serões das últimas semanas, não me parecem ter sido suficientemente esclarecedores das reais dúvidas dos portugueses quanto à governabilidade do país. Um ou outro líder lá foram confrontando os maiores representantes parlamentares com as reais necessidades do país, mas expressão da sua voz não é ainda suficiente para fazer mudar a balança do poder, que pende entre uma esquerda e uma direita que oscilam nos valores das sondagens.

Mas o mais assustador de tudo é quando o “humor” e os “animais de estimação” passam a ser o centro das atenções nos telejornais ou nas redes sociais, polarizando o discurso político entre graçolas e troca de galhardetes que em nada buscam o bem da nação.

Em lugar de uma discussão séria do país, mergulhado numa profunda crise, em nada se valorizou o nosso lugar na Europa e nem tão pouco se abordaram as suas tensões internas nem externas. As futuras regras orçamentais da zona euro passaram despercebidas, assim como a “bazuca”, esperança de tantos e desilusão de muitos outros.

A preocupação do Governo que vai entrar é somente a da estabilidade, por isso se levanta a voz para pedir maiorias absolutas, se conjugam interesses partidários e já se parte com a real noção de a “geringonça” vai apresentar um novo modelo, para se lançar na corrida dos próximos anos de governação.

E entre um bispo de sai e um governo que entra, aqui seguimos nós à espera de que alguém encontre o rumo certo para que se nos criem as condições de que tanto necessitamos para continuar. Porque na verdade, os líderes vão passando, as formas de conduta e os caminhos estipulados podem ser alterados, mas nós permanecemos no nosso ritmo social e espiritual, mesmo que marcado por essas mudanças. Mas nada muda este desejo de vingar nesta esfera armilar que nos coloca no centro do mundo, mas nos tem esquecido em todas as nossas dimensões.

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