Especialistas defendem flexibilização das leis laborais para sobreviventes de cancro da mama

Senologistas alertam para alterações hormonais, que podem ter implicações cognitivas, e sublinham a necessidade de sensibilizar a sociedade para as dificuldades que enfrenta quem vive com a doença ou a ultrapassou
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Ana Ribeiro Rodrigues

Sobreviver ao cancro da mama e ultrapassar os tratamentos obrigam a reaprender a viver, enfatiza a vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Senologia (SPS), Gabriela Sousa, que considera haver “bastante a fazer” para a reintegração de sobreviventes da doença, nomeadamente na flexibilização das leis laborais e na sensibilização da sociedade civil.

“Ainda há bastante a fazer na reabilitação dos nossos doentes após tratamento com intenção curativa”, salienta a senologista, segundo a qual “a experiência de passar pelos vários tipos de tratamento é uma experiência que implica reaprender a viver depois do cancro”.

A vice-presidente da entidade que se dedica ao estudo do cancro da mama considera que “o mais difícil é o equilíbrio entre aquilo que a pessoa quer fazer e aquilo que a pessoa efectivamente consegue fazer e a forma como é apoiada pelos amigos e pela família”.

Para sensibilizar a sociedade para as dificuldades que enfrentam as sobreviventes da doença, e abordar as particularidades associadas e as situações a ter em conta, a SPS lançou a campanha “Viver Depois do Cancro da Mama”, com o apoio das embaixadoras do projecto, a actriz Carla Andrino e a radialista Joana Cruz, pessoas que “podem dar um testemunho de vivência na primeira pessoa”.

A campanha incide no que fazer ao nível da nutrição, alertando para uma alimentação respeitando a roda dos alimentos; na necessidade de fazer exercício físico adaptado à condição de cada um; nas técnicas de relaxamento que peritos vão recomendar e na sexualidade.

Tratamento deixa marcas

Gabriela Sousa chama a atenção para a elevada taxa de divórcios após o diagnóstico e tratamentos ao cancro da mama e alerta para a necessidade de os companheiros saberem lidar com as dificuldades que advêm das alterações da imagem ou das alterações hormonais, com implicações na sexualidade.

A médica defende ainda “uma reestruturação” das leis laborais e uma “mudança de mentalidades das entidades empregadoras ao nível das relações sociais no local de trabalho, porque essas pessoas vão fragilizadas por um diagnóstico que pôs em risco a sua vida e por um tratamento que lhe deixa marcas”.

A clínica apela para um maior conhecimento e compreensão para que seja possível maior flexibilidade nas empresas, nomeadamente dando a possibilidade de adoptar horários parciais, a possibilidade de teletrabalho ou a redução de carga horária em determinadas tarefas, no caso de quem regressa ao posto de trabalho e está a “reaprender a viver”.

“Há pessoas que chegam às empresas de onde saíram e lhes é pedido que correspondam da mesma forma que era pedido antes, mas muitas vezes essas pessoas experimentam alterações hormonais que, até do ponto de vista cognitivo, não lhes permite a mesma capacidade de concentração e a mesma capacidade de desenvolver as tarefas como faziam antes”, acentua Gabriela Sousa.

Texto completo na edição papel do NC.