Estudantes aprendem a salvar vidas

Cerca de 200 alunos experimentaram, em modelos anatómicos, o que deve ser feito em caso de emergência, até chegar ajuda profissional

O pavilhão da Escola Secundária Frei Heitor Pinto juntou cerca de 200 alunos para fazerem um treino de grupo de Suporte Básico de Vida (SBV). Mantiveram-se atentos a ouvir as instruções e depois participaram, alguns apreensivos, mas empenhados, na simulação em modelos anatómicos. Cada compressão no peito de borracha, cada gesto bem executado e coordenado, é um ensaio para uma situação onde podem ser o elo entre a tragédia numa urgência e uma segunda oportunidade.

A iniciativa foi feita também em outras escolas e foi uma das ações do Mês da Proteção Civil, que incluiu simulacros de incêndio e outras medidas preventivas.

Depois de ouvir a explicação teórica, os alunos de várias turmas juntaram-se em grupos à volta de modelos anatómicos, cada um com um instrutor, para, à vez, porem em prática as regras a seguir.

“Ver, ouvir se há algum ruído, sentir”, vai repetindo o bombeiro Filipe Batista. “Não flitas os braços a fazer as compressões, senão não consegues”, reforça. “Tens de fazer força a soprar na máscara”, ajuda.

No círculo ao lado, o bombeiro Abel Joaquim frisa que o primeiro elo da cadeia de sobrevivência é chamar ajuda, ligar para o 112 e descrever o que se está a observar. Responder se a vítima está consciente, se respira, se responde ou não, dizer qual a idade aproximada e seguir as indicações que forem dadas. “Se queremos salvar uma vida, temos de atuar rapidamente”, transmite.

Apesar de serem muitos alunos, não há ruído no pavilhão. Recordam uns aos outros partes do processo. Esperam que chegue a sua vez de testar. Revêm os passos a dar. Tiram a máscara individual da caixa laranja, poem-na em posição, fazem compressões a um ritmo vigoroso e alterado.

“Mãos na testa e dois dedos no queixo, para desobstruir a via aérea”, ouve-se. “Se souberem o nome da vítima para a chamar, melhor”, repete em outro grupo uma voz experiente. Ajustam-se posturas, corrigem-se gestos, na simulação de uma dança sincronizada entre a técnica e a urgência da vida. Hoje é a fazer de conta, mas a qualquer momento, em qualquer ocasião, agir corretamente e com rapidez pode fazer a diferença na sobrevivência de alguém.

Rodrigo Ferreira, 15 anos, confessa-se nervoso, mas sente-se preparado para atuar. Já tinha assistido a uma palestra sobre a temática. Nada como pôr em prática a teoria, para melhor a assimilar.  “Deu para perceber como devemos atuar. Nunca se sabe se pode ser um familiar ou alguém ao lado e ser preciso. É importante saber como atuar nestas circunstâncias”, comenta.

“Este exercício é mais aproximado de uma situação real. Ter a experiência de fazer é muito diferente do que apenas assistir a uma palestra. O ideal é que não seja preciso, mas, se acontecer, espero conseguir ajudar, porque o que aprendemos, fica, e quanto mais se treinar melhor se vai fazer”, considera Leonor Cardona, de 15 anos, que na quarta-feira, 27, trocou a aula de Educação Física pela formação em SBV.

Mónica Ramôa, professora de Biologia há 32 anos, destaca o “entusiasmo e o empenho” demonstrados pelos alunos na tarefa.

Com conhecimentos em SBV, já lhe foi “bastante útil” na sala de aula, quando teve de prestar socorro a um jovem com um episódio espasmódico.

A professora considera que esses conhecimentos fazem parte da educação cívica para a saúde e advoga que se repita junto dos alunos todos os anos. “Isso é que é transformador, quando um aluno, quando um jovem adulto, por exemplo, consegue rapidamente, devido ao treino que teve, socorrer alguém com segurança numa emergência”, vinca.

Aqui fala-se em avaliar as condições de segurança, compressões e insuflações, posição lateral de segurança, desobstrução da via aérea ou como lidar com o 112.

Rita Fabião, 15 anos, já tinha tido uma formação nos escuteiros com um enfermeiro e considera que todos os cidadãos deviam saber o fundamental de como prestar os primeiros socorros.

“É importante termos estes conhecimentos para tentarmos salvar vidas. Devia ser ensinado na escola a todos os alunos. Não ser só uma formação para algumas turmas, mas para todas”, preconiza a aluna de Humanidades, depois de ter bombeado ritmicamente uma esperança simulada no peito de um manequim inerte.

Aluno de Ciências e Tecnologias, Martim Curto, 17 anos, aprendeu algumas noções com a irmã, enfermeira, e olha para estas iniciativas como algo que traz “conhecimento que pode ser muito útil no futuro se tivermos uma vida nas mãos”, referiu.

O estudante de 11.º ano entende que se trata de “uma ação de cidadania” e que importa ir aprofundando e consolidando, por isso parece-lhe fazer sentido que não seja uma ação isolada, mas matéria curricular, que todos devam aprender.

É essa a ambição do coordenador municipal de Proteção Civil, Luís Marques, com um projeto em mente que visa introduzir o suporte básico de vida nas escolas, não apenas junto de professores e assistentes, mas também “tornar isto parte da disciplina de cidadania”, para dar competências na área desde muito novos. “Penso que é um caminho que temos de fazer”, defende.

Sobre o conjunto de ações, enalteceu a seriedade com que os alunos encararam a tarefa e o empenho em aprenderem.

“É o início de algo que depois requer treino, mas fica esta chama nestes meninos para eles continuarem a trabalhar o suporte básico de vida ao longo da vida”, salienta Luís Marques.

Por outro lado, além da aquisição de conhecimentos por via direta, o coordenador municipal tem a expetativa de que os jovens cheguem a casa e partilhem o que aprenderam, “começando a criar uma dinâmica”.

“O objetivo é termos uma comunidade escolar sensibilizada para o suporte básico de vida, para estas situações de paragem cardiorrespiratória, e saberem o que fazer”, enfatiza Luís Marques.

Segundo o responsável, “não adianta termos o melhor sistema de emergência médica no país, do mundo, se não houver ninguém, quando a paragem cardíaca respiratória ocorre, a fazer manobras de suporte básico de vida, porque diminui muito a probabilidade de sobrevivência da vítima”.

“É muito importante que o cidadão, que é o primeiro agente de proteção civil, saiba fazer suporte básico de vida, para depois, quando chegarem as equipas de bombeiros, de emergência médica, a vítima ter uma maior probabilidade de se salvar”, insiste Luís Marques.

Para complementar e tornar mais robusta a resposta a uma emergência, até ao final do ano letivo vão ser entregues desfibrilhadores em dez escolas, onde já há grupos de 12 pessoas com formação para utilizar o aparelho, mas o comandante operacional de Proteção Civil ambiciona que mais gente saiba como proceder.

“Depois queremos alargar a toda a comunidade escolar, para que toda a gente possa utilizar aquele equipamento, porque nós entendemos que, um dia que seja preciso, devemos ter esses equipamentos e podemos saudar uma vida”, acrescentou Luís Marques.

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