Fala-se de dramas na esplanada

A fraternidade é chave que deveria reger a humanidade
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Se nos pomos a pensar seriamente nas dificuldades que a vida se encarrega de nos fazer sentir e damos uma volta ao mundo, precisamos de menos de 80 segundos para vislumbrarmos uma quantidade de dramas que nos assustam e apelam a uma certa revolta interior. E falamos, apenas, daqueles que estão à vista de todos, porque uma câmara de televisão ou uma objectiva os captou para conhecimento de todos, porque na realidade, dramas dentro de quatro paredes, em casas e instituições, não nos faltam.

Nestes últimos tempos, Cabo Delgado têm sido o grande centro das atenções. Os ataques terroristas que acontecem já desde 2017 passaram a ser agora notícia diária, que faz mexer as entranhas e a revolta das consciências.

O facto de se ter tornado mais visível e se ter adensado no número de vítimas mortais e de deslocados, desencadeou uma onda de solidariedade, também na Covilhã, que apesar de ser uma gota no meio daquele imenso mar de sofrimento é um sinal de que os dramas alheios não nos são indiferentes.

Para além disso, fomos confrontados com as cheias e inundações que devastaram grande parte da cidade de Dili em Timor. O número de mortos e desalojados não deixa de ser preocupante, sobretudo porque, uma vez mais, aqueles que parecem ser marcados pelas vicissitudes e sofrimentos, renova-se essa condição de “condenados”.

E é só destes que mais se fala… em casa, nas redes e nas esplanadas, que agora reabrem e disponibilizam conversas em mesas de quatro, onde o drama e a pandemia preenchem o diálogo e levam à questão: “já não chegava tudo o que estamos a passar?”.

Na alocução que proferiu, este ano dentro da Basílica de S. Pedro, para evitar ajuntamentos, o Papa Francisco lembrou cada um dos dramas bélicos espalhados pelo mundo. E no desabafo de quem carrega estas dores de uma humanidade inteira, deixou soltar um “ai” de cansaço e algum desânimo: “No mundo, há ainda demasiadas guerras e violências!”

De facto, quando nos pomos a pensar nos sofrimentos do tempo presente perguntamo-nos, indubitavelmente, como o Pe. Vasco Pinto de Magalhães, no pequeno opusculo intitulado “Se Deus é bom porque sofremos?”: “o sofrimento bate a todas as portas, mas afinal o que é? E porque razão sofremos? Como é possível acreditar que Deus existe e observar que, aparentemente, Ele permite tanta maldade e dor? Por outro lado, qual a nossa resposta ao sofrimento? Que estratégias para o integrar e superar?”

É certo que o sofrimento é uma das características da condição humana, frágil, limitada e impotente em tantos campos. Mas também é certo que, diante das muitas dores da humanidade, há muitas que não nascem da injustiça, mas sim do egoísmo da autorreferencialidade e sede de um poder que não tem razão de ser, porque afinal a fraternidade é chave que deveria reger a humanidade.

São demasiados os conflitos, as injustiças e os dramas a acontecer dentro das casas das nossas comunidades, são demasiadas as notícias de fecho de pequenos negócios, de doenças tardiamente diagnosticadas, de violências domésticas e de fúrias incapazes de perdão. E no meio de tanto drama, na conversa de esplanada que vai fazendo a análise socio política e económica do momento, pode surgir um drama maior e mais perigoso que é o da indiferença e desvalorização do sofrimento alheio.

Começamos a correr o risco de nos habituarmos a conversas de esplanada que dramaticamente não nos levam a fazer nada pelos que não se podem sentar para descansar dos seus dramas.

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