Foi há 75 anos que a Covilhã coroou Nossa Senhora

Acreditaram os que participaram naquela cerimonia que jamais seria esquecido tão sublime momento
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Carlos Madaleno

Há datas que não se esquecem e 13 de maio de 1947 foi uma delas. A fé dos covilhanenses e o amor por eles demonstrado à Virgem Mãe tornaram aquele dia sublime.

A iniciativa da coroação de Nossa Senhora foi levada a cabo pela freguesia de S. Pedro e pelo seu dinâmico pastor espiritual, o padre José Domingos Carreto. Desde 1945, que com este sacerdote, a devoção ganhara dimensão nessa freguesia. Nesse ano, a 13 de maio, realizou-se uma grande procissão entre a Capela de S. João de Malta e o monumento da Imaculada Conceição. Destas celebrações de 1945 fez ainda parte uma concentração das Congregações Marianas. O “Notícias da Covilhã” fazia apelo, no número da semana anterior ao acontecimento, para que todas as “Filhas de Maria” comparecessem com fitas nos locais previstos e para que todos os moradores das ruas por onde passasse a procissão enfeitassem as janelas com vistosas colgaduras.

No ano seguinte, de 1946, em Fátima, dava-se a coroação da Virgem. A partir daquele momento, Nossa Senhora de Fátima era rainha de Portugal.

A notícia de tão eloquente ato chegou até às mais recônditas e esquecidas paróquias. A Covilhã não foi exceção e na freguesia de S. Pedro consta que um humilde operário sugeriu ao pároco que se imitasse tamanha solenidade. Perante o ceticismo do padre e para dar corpo à causa, logo lhe entregou uma corrente de ouro.

No Domingo seguinte é anunciada a pretensão de coroar a imagem de Nossa Senhora de Fátima existente em São João de Malta. A partir de então a sacristia daquela Capela, provisoriamente matriz da paróquia, via-se frequentada pela devoção de um povo que oferecia todo o tipo de joias. Tal como alguém nessa altura escreveu “antigas recordações de família, heranças afectuosas, queridas prendas de noivado, quem não tinha oiro oferecia prata”. E, quando o Prior foi contar e inventariar as ofertas, encontrou 368 anéis, 35 alianças, 299 medalhas, 15 medalhões, 80 pares de brincos e argolas, 73 alfinetes de gravata, 28 correntes, 55 broches e cruzes, 155 fios e pulseiras, 17 braceletes, 14 abotoaduras completas, 3 libras, 5 outras moedas de ouro, 2 relógios e um cordão.

Com todas as joias confecionou-se, uma coroa imperial encimada por globo crucífero, cuja cruz, tem 23 diamantes e 7 brilhantes. Muitas outras pedras e pérolas foram incrustadas na coroa. Quanto aos objetos de prata foram aproveitados para confecionar uma belíssima custódia.

No dia 13 de maio de 1947, foi o grande dia. Às 9.30h começaram as cerimónias, com missa campal no largo de S. João de Malta, que se encontrava repleto de fiéis.

À tarde, a procissão deslocou-se para o Pelourinho, local onde se procederia à cerimónia de coroação. O andor enfeitado por dez dúzias de cravos brancos, oferecidos por António Boléo, foi transportado pelo Presidente da Câmara, Dr. Carlos Coelho, pelo Dr. José Ranito Baltazar, pelo Comandante dos Bombeiros e pelo Comandante dos Caçadores. De todas as varandas pendiam colchas, às janelas estavam os que já não tinham forças para participar doutra forma.

No Pelourinho improvisou-se um altar em forma de coroa assente em quatro colunas, num outro espaço colocou-se um estrado onde o governador civil, Dr. José de Carvalho e os restantes convidados assistiram à cerimónia.

Chegada ao Pelourinho a procissão, que contava com guarda de honra prestada pelos Escuteiros, Mocidade portuguesa e continha mais de uma centena de crianças vestidas de anjo, foi recebida em apoteose pelos cerca de 8000 fiéis que ali se encontravam.

O Governador Civil entregou a coroa de ouro ao Bispo da Guarda que procedeu à cerimónia da coroação. Seguiu-se uma eloquente oração proferida pelo cónego Luiz Mendes de Matos, natural da Covilhã e deputado à Nação.

Cantado o Te Deum pela Schola Cantorum do seminário do Fundão, de novo se organizou a procissão para S. João de Malta. Sobre os milhares de crentes que acenavam com lenços brancos, a avioneta do aeroclube da Covilhã lançava quilos de pétalas.

Por fim, já no largo de S. João de Malta, o Bispo auxiliar, da varanda de Francisco Ranito, dá a bênção do Santíssimo à multidão.

Acreditaram os que participaram naquela cerimonia que jamais seria esquecido tão sublime momento, volvidos apenas 75 anos, poucos o lembrarão, mas na coroa daquela imagem continuará para sempre a cintilar a fé e a alma duma cidade que coroou a Virgem Maria, sua Rainha.

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