Foram presos políticos e estão agora em confinamento

Perderam a liberdade por quererem o fim da opressão de uma ditadura que durou 48 anos. A pandemia fá-los, por estes dias, viver novamente com os movimentos limitados
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Queriam um Portugal livre e democrático e pagaram essa aspiração com o cárcere. José António Pinho e José Pinheiro da Fonseca, ambos com 80 anos, foram prisioneiros políticos. Viram-se privados da liberdade e à mercê das arbitrariedades da PIDE. Por estes dias, passados 46 anos sobre o 25 de Abril, encontram-se novamente em confinamento, desta vez voluntário, para evitar a propagação da pandemia do novo coronavírus.

Torturado, humilhado, espancado durante os cerca de dois anos de prisão em vários estabelecimentos, desde o Forte de Peniche ao de Caxias, da Graça, em Elvas, às casas de correcção militar em Penamacor e Viseu, José António Pinho, conhecido empresário da Covilhã, nunca mais tinha estado tanto tempo recolhido desde esse período da sua vida que o marcou para sempre.

Embora não exista paralelismo possível entre ambas as situações, o antigo militante comunista e candidato da oposição democrática durante o Estado Novo considera que esses tempos “duros” lhe criaram “resistência” para enfrentar as adversidades.

José António Pinho afirma-se “consciente” e recolheu-se ainda antes de o Governo o decretar. “Nunca mais me tinha acontecido isto desde que fui preso, mas aqui entretenho-me, falo com os vizinhos. Uma das coisas que aprendi na prisão foi a ser paciente, a ser ponderado, a ter calma e a respeitar os outros”, sublinha o proprietário de uma empresa de combustíveis e de um restaurante, que despertou para a política activa quando a visita do general Humberto Delgado à Covilhã, em 1958, lhe “abriu os olhos” e a “farsa eleitoral” o fez agir, distribuindo propaganda, desde “O Avante” à Carta do Bispo do Porto.

Isolado em Caxias sem acusação formada

Pinheiro da Fonseca, na altura empregado bancário, foi levado pela polícia política a 5 de Janeiro de 1968 da Covilhã, por actividades contra a segurança do Estado, suspeita “infundada”, garante. Não era necessário cometer qualquer crime. Bastava existir uma divergência ideológica e não a esconder para se ser alvo de perseguição. Tinha acesso a livros, discos e outro material considerado subversivo, mas não era militante comunista, motivo pelo qual o mantiveram encarcerado, em total isolamento, sem contacto com outros presos ou com o exterior, 75 dias.

Esteve sozinho, numa cela em Caxias, sem qualquer acusação. Não foi condenado, não foi julgado, nunca teve acesso a um advogado, profissão que mais tarde viria a abraçar. Depois de interrogatórios sucessivos e de ter sido submetido à tortura do sono, por acharem que era militante do PCP e querem saber quem eram os seus contactos, acabou por ser solto, mas demorou a recuperar o emprego.

Ficar em casa “não é um drama”

Em casa, para se proteger e a terceiros da pandemia da covid-19, José Pinheiro da Fonseca olha para a circunstância actual como uma necessidade “de interesse geral, que é a defesa da saúde, do próprio e da dos outros”.

Face à situação que viveu, bem vincada na memória, apela à razão dos cidadãos, sublinhando que as medidas decorrentes do estado de emergência causam “um certo incómodo, mas não é um drama”.

“É um manifesto exagero, a meu ver, que um cidadão em confinamento se sinta numa prisão. Apesar de confinados, ainda podemos, embora com restrições, ver pessoas, até falar-lhes, a certa distância”, acentua o advogado, quando compara o ter de estar simplesmente em casa com estar fechado numa cela, sem ter com quem falar, sem televisão, sem poder receber visitas ou telefonar, sem sequer ter papel e caneta para escrever.

Apesar de sublinhar ser um confinamento relativo aquele em que grande parte da população se encontra há mais de um mês, entende que possa ter um efeito psicológico nas pessoas. “Qualquer pessoa pode passar uma, duas ou três semanas sem sair de casa, com isso não sentindo qualquer incómodo, mas basta que se diga a essa pessoa que fica proibida de sair de casa por certo lapso de tempo, e esse constrangimento logo induz na pessoa algum sofrimento”, frisa. “Não me sinto nada constrangido, mas nem todas as pessoas são iguais. Algumas exageram muito nos seus queixumes”, sublinha.

Celebrar o 25 de Abril “com responsabilidade”

José António Pinho, que continua a gerir o negócio à distância e está preocupado com os meses que se avizinham, com os salários para pagar tendo pouco dinheiro a entrar e com as consequências da covid-19, “que não vão afectar toda a gente da mesma maneira” e pode provocar graves problemas sociais, considera-se privilegiado. “Eu sou um felizardo, porque tenho uma horta, onde planto cebola, tomate, alfaces, pimento, beringelas. Entretenho-me”, conta.

Autor de livros sobre os tempos de opressão, que viveu na pele, aproveitou o distanciamento a que a pandemia obriga para começar a escrever um novo volume, que abarca o período entre 1953 e 1965 e onde vai contar o episódio em que cerca de 30 homens foram presos em 1963 por suspeitas de “actos subversivos”, quase todos operários. Pinho foi acusado igualmente de comportamento subversivo e traição à pátria, forma de perseguir “quem tinha uma ideia contrária à do regime” e procurava sensibilizar os colegas “para reivindicarem os seus direitos”.

O empresário diz-se consciente e afirma ter essa obrigação, para honrar um passado de luta, por isso considera natural a comunidade proteger-se e adianta não ter pressa em abrir o restaurante enquanto não existirem garantias mínimas de segurança.

Fez os 19 anos na prisão, “uma escola”, e passou por muito, mas percebe quem se queixa de estar há várias semanas fechado em casa, com “filhos irrequietos” ou sem um espaço ao ar livre para espairecer.

A Revolução dos Cravos foi muito ambicionada e celebra-a pondo uma bandeira à janela, gesto que vai repetir este ano, por ser uma data festiva, embora vinque ser necessário assinalá-la “com responsabilidade”. Em cerimónias formais e sessões solenes não costuma participar, porque “o 25 de Abril foi sempre na rua, na luta, nas reivindicações”.

Pinheiro da Fonseca, que publicou a sua experiência pessoal no livro “Pide – Crónica de Uma Prisão”, também costuma festejar o 25 de Abril, “embora nem sempre com o empenho que a data merece”. “Por mim, este ano, vou celebrar em pensamento”, frisa. Tendo em conta os condicionalismos destes dias, é da opinião que todos deviam ser mais comedidos e satisfazia-o se a efeméride fosse assinalada oficialmente com uma mera comunicação ao país do Presidente da República, na esperança de que o vírus dê tréguas e novas portas se abram, para que as gentes voltem a invadir a sua própria cidade.

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