Hospitaleiros: já não o somos?

A indiferença (…) é talvez a pandemia mais feroz que este século nos tem trazido
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A crescente escalada das ofertas e destinos turísticos a que fomos assistindo nos últimos anos era muitas vezes justificada pela hospitalidade com que Portugal recebeu e recebe os que nos visitam. Obviamente que, para além da paisagem litoral, dos monumentos históricos, de uma cultura ímpar, feita de folclore e fado, Portugal sempre teve motivos para receber bem os que muito o tem visitado e feito deste um dos destinos mais procurados nos últimos anos.

A pandemia veio quebrar bastante desta escalada, abrandar o ritmo de trabalho dos aeroportos e refrear o ritmo a que iam crescendo os negócios que nasciam deste “boom” do turismo português.

Na realidade, a criatividade e o espírito empreendedor português, de uma nova geração que se vai recriando para fazer crescer uma economia sustentável têm sido imagem de marca, que agrada a quem nos visita e que por isso nos chama de hospitaleiros. Talvez porque às vezes pensamos mais em quem nos visita do que em quem por cá é vizinho de todas as horas.

A nossa hospitalidade de “casa portuguesa”, onde não faltam “pão e vinho sobre a mesa”, foi beliscada nos últimos dias, quando observámos o que se passou pelo Alentejo e toda a questão em torno dos muitos trabalhadores que, encontram em Portugal fonte de rendimento, mas pouco de hospitalidade.

As notícias, muitas delas feitas de imagens, deixaram-nos um gosto amargo da nossa identidade. Fez-nos questionar se somos assim tão hospitaleiros ou se a nossa hospitalidade é generosa e simpática porque nos traz lucro e vantagem.

É claro que de uma parte não se faz um todo. Mas quando se coloca em causa a dignidade de uma pessoa e repito, uma pessoa, coloca-se em causa quem realmente somos e como acolhemos, sobretudo o mais frágil e desfavorecido.

Não se abre aqui uma “crítica” à nossa hospitalidade, nem uma discussão sobre o direito à propriedade privada. O que se pretende reflectir é se realmente estamos atentos a tudo o que se passa à nossa volta e se dedicamos a atenção devida a quem, mesmo não sendo da nossa comunidade, merece toda a dignidade humana.

A indiferença, já o afirmei por várias vezes, é talvez a pandemia mais feroz que este século nos tem trazido. A sua propagação é cada vez maior e notória. E, quando toca à obtenção de lucros, parece que o bem da pessoa é o que menos importa, diante do benefício económico que ela possa produzir.

E se uma pessoa, uma só, vive em condições de degradação e sem a higiene ou bens essenciais a que todos temos direito, isso deve ser problema e preocupação comum. É de uma pessoa que se trata e não de uma fonte de rendimento.

Este não é o nosso Portugal. O Portugal em que habitamos sabe acolher e dar resposta ao que por ele “peregrina”. A imagem da indiferença não nos assenta bem, a nós que vamos vendo mudar a nossa geografia humana cada vez mais. Integrar, promover a multiculturalidade, criar mecanismos de inculturação e fazer sentir bem os que escolhem o nosso País como destino para viver, tem de ser a imagem de marca, não apenas do turismo português, mas de uma nação aberta às fronteiras da aldeia global em que habitamos.

Os valores humanos, as características pelas quais somos conhecidos “lá fora” não podem mudar, porque continuamos a ser hospitaleiros!

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