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Laura Gonçalves: a menina distraída que se tornou realizadora de cinema

Natural de Belmonte, Laura Gonçalves é hoje um nome incontornável no mundo do cinema de animação em Portugal. Uma aluna “média”, enquanto criança, que se prendia com o desenho enquanto os professores ensinavam outras matérias

Nasceu a 13 de abril de 1988 (35 anos) no hospital da Covilhã, mas a sua naturalidade é Belmonte. A terra onde viveu, cresceu e estudou na primária. Saiu para Lisboa, para estudar Belas Artes, que concluiu em 2009. Emigrou até Inglaterra para fazer um mestrado e hoje vive no Porto, onde hoje trabalha na Cooperativa BAP Animation Studio, da qual é um dos membros fundadores. E tem premiados, a nível nacional e internacional, alguns filmes de animação. Regressou em dezembro a Belmonte para os apresentar. “Sempre que cá venho, é um momento bonito” confessa Laura Gonçalves, realizadora de curtas de animação, um mundo que desde cedo lhe correu nas veias.

“A sua paixão sempre foram os desenhos” confessa o pai, Dario Gonçalves, professor aposentado, que ainda hoje, em casa, encontra desenhos de Laura. Para o progenitor, os passos que a filha deu até chegar ao mundo da animação não o surpreendem. Até pela irreverência que Laura sempre mostrou. “Era uma aluna com aproveitamento médio/bom. Com muita vitalidade. Segundo os professores “estava sempre em todas” e nem sempre em coisas do seu agrado. Contudo, as principais queixas referiam-se ao facto de estar frequentemente a desenhar, parecendo-lhes que não prestava atenção” conta Dario sobre a sua filha, que muitas vezes se entretinha, sozinha, em casa, a ver e rever cassetes de filmes de animação e “simultaneamente desenhava e recriava as personagens” garante.

Uma infância que serve muitas vezes de inspiração a Laura, que veio mostrar duas das suas curtas-metragens já premiadas: “Três semanas em Dezembro” e “O homem do lixo”. Na primeira, em que recria a quadra natalícia, em casa, à mesa, entre familiares. Em que se fazem filhoses. Se convive. E que serviu de homenagem ao avô, que falecera recentemente. Na segunda, uma película que esteve pré-nomeada para os Óscares, Laura presta uma homenagem ao seu tio, um homem que esteve no ultramar, emigrou para França onde, ao trabalhar no setor da recolha de lixo, trazia os chamados “monos” para casa, os arranjava (desde televisores, bicicletas, etc) e depois, no Verão, os oferecia a familiares, em Belmonte, onde muitos destes eletrodomésticos e objetos não existiam. Nas duas curtas, conta com vozes que ouviu desde pequena.

“É emocionante voltar. Estou a ver pessoas que dão voz aos meus trabalhos, que me dão inspiração. Estou rodeada de amigos e pessoas que me viram crescer, e isso é incrível. Ainda por cima, duas curtas que têm temas tão próximos a todos nós, um ponto de conexão” explica a realizadora.  “O primeiro filme surgiu quando estava a estudar em Inglaterra, e não sabia muito bem o que queria fazer. No fundo, o meu coração é que me trouxe para isto. Trouxe um gravador, e comecei a gravar pessoas a falarem, e a fazerem coisas. Tirei três semanas, em dezembro, que dão título ao filme, e acabei por ficar esse tempo cá a fazer desenhos, a falar com pessoas. E é daí que surge a estrutura de todos os filmes que fiz para a frente. Foi desse momento. De achar que as experiências que vivia eram o que me inspirava. Eram essas pequenas histórias que eu queria contar ao público, em geral. Da minha terra, da minha família, das minhas raízes, a toda a gente” explica ao NC.

Quando regressa a Belmonte, é sobretudo para rever a família, pelo que “acabo por só ter bons momentos cá. Fazer histórias sobre as minhas experiências aqui, é sempre algo que gosto. São histórias muito genuínas, que quis contar através de animação, que era uma coisa que na altura em que comecei não era muito explorado. Acabou por ajudar ao seu sucesso o usar histórias reais, de pessoas reais, com animação” explica Laura.

Sobre o sucesso destas curtas, em especial, a que chegou a pré-nomeada dos Óscares, Laura diz que não esperava. “Não, de todo. Mas o facto de ser animação e vozes genuínas, além da técnica, e as pessoas se reverem nisso, ajuda” conta, lembrando que, talvez assim, o mundo da Sétima Arte se lembre mais que existe um país chamado Portugal onde o cinema de animação” tem muita qualidade, há muitos anos”.

A próxima “curta” já está a ser trabalhada. Chama-se “Percebes”, com dupla conotação: o famoso marisco que se come, mas também uma chamada de atenção para o êxodo demográfico no Algarve. A interioridade. Como tem sido apanágio de Laura. Um filme co-realizado com a Alexandra Ramires. “É uma amiga minha, com quem partilho estúdio. É do Algarve. Usamos o percebes, enquanto guia, que segue o caminho desde a apanha até ao prato, passando por vários momentos geográficos do Algarve, onde vamos falando com pessoas para quem o turismo acaba por influenciar muito o seu modo de vida. Falar sobre o viver numa região que é tão atingida pela sazonalidade, homenageando quem acaba por ficar, apesar de tudo” conta a realizadora belmontense.

No que diz respeito a outros projetos, também há ambição. “A animação tem ainda muito para explorar. É uma tela em branco, na qual criamos mundos inteiros. Mas gostaria também muito de fazer uma mistura com imagem real. Gostava de um dia fazer um projeto que envolvesse as duas técnicas” conta ao NC.

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