Mais Portugal

As nossas liberdades é que desfiam o futuro que havemos de tecer
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Dediquei-me a entrar num motor de busca para ver o que se diz por aí sobre a nação lusitana, uma vez que a nossa edição sai para as bancas neste Dia de Portugal, da Comunidade e de Camões.

Entre as sui generis explicações da dimensão dos 92.090 km² por onde se estende o território, a mencionada fronteira com a Espanha e com o Atlântico, entre a referência aos arquipélagos dos Açores e da Madeira, achei curioso um dado referido com grande destaque: “mais de 100 mil brasileiros vivem em Portugal”.

Necessariamente o site consultado era de origem brasileira, mas não menos interessante é o facto de haver cada vez mais uma cultura do “ensinamento” de como chegar e vir viver para Portugal, a tantos brasileiros ou de outras nacionalidades que nos vão reconhecendo como o seu “el dourado”.

Seria de significância residual este dado, não fosse a tão actual discussão sobre a imigração que entra pelas portas da Europa e concretamente a Sul. Mas que é também cada vez mais visível noutros centros, para além de Lisboa e Porto.

A Covilhã tem sido um desses destinos que aloja e faz crescer um Portugal cada vez mais diferente, seja na geografia humana, seja nos hábitos culturais ou na simples forma de estar.  E isto diz muito de nós, do povo que somos, da capacidade de encaixe e habituação fácil, mas também da nossa “vaidade” e “bairrismo” que colocam o pastel de nata ou o vinho do Porto num patamar elevadíssimo, mas nunca superior à cereja do Fundão ou à cherovia cá da cidade.

Continuamos, de algum modo, a ser o “País dos brandos costumes”, ainda que numa observação mais científica e delicada conseguimos compreender que nem tudo é tão pacífico e tão equilibrado. Uma leitura atenta da nossa portugalidade leva-nos a observar os níveis de violência doméstica crescente, a corrupção como dado dominante, o atraso e desconfiança na justiça, o descrédito do poder político e das instituições.

Tudo seria título para uma crónica social que descrevesse os ambientes caricaturados deste Portugal que às vezes não se entende, um pouco à imagem do “Episódio do Jantar no Hotel Central”, n’”Os Maias” de Eça de Queirós, em que desfilam as principais figuras e problemas da vida política, social e cultural numa crítica a Portugal, personagem colectiva, representada pelas várias personagens que percorrem o romance.

Por vezes parece-nos termos voltado lá, à sociedade polarizada entre ricos e pobres, entre “afortunados” de tudo e despojados de nada, entre os que vivem com muito e os que sabem viver remediados.

… e assim vai Portugal, brando em costumes e desejoso de mudanças, de novos ventos e ventos de esperança, que teimam em não sacudir os que a podem fazer sentir a quem mais a necessita.

É certo que nos cabe a nós construir o sempre novo. É certo que as nossas liberdades é que desfiam o futuro que havemos de tecer, mas sem um novo impulso que agite as novas águas que a pandemia nos fez experimentar, sem políticas novas e sem estratégias que possam trazer novo fôlego às milhares de empresas, negócios e perspectivas de futuro a quem os gere.

Portugal precisa de todos, mas precisa de mais… e esse influxo não está nas mãos de quem o pode ajudar a contruir, mas sim no poder de quem tem a missão de o governar.