Menos um ano de Liberdade

Creio que nestes 46 anos de democracia falhou muita da educação cívica
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A pandemia já leva mais de um ano e a nossa liberdade conta já com 46… ou será que lhe devemos descontar este último?

Domingo próximo celebramos o Dia da Liberdade, dia de grande vitória para o País que amordaçado, viveu sob o signo de uma ditadura a quem Abril rompeu as cadeias pela força dos cravos vermelhos que gritavam o desejo de um novo Portugal.

Veio a liberdade e a valorização dos direitos democráticos, alcançaram-se grandes conquistas, uniu-se uma Europa, falaram os poetas, levantou-se o pensamento e também se abriu a porta à libertinagem, dos hábitos, dos costumes e até do poder, tantas e cada vez mais exercido sob a bandeira do interesse pessoal, que facilmente convida a corrupção a entrar pela porta da Democracia.

E, por mais um ano, a 25 de Abril se vive neste contexto de pandemia, que nos retira a liberdade das acções e nos confina ao nosso espaço, no qual somos livremente prisioneiros de nós mesmo, das nossas famílias e do que nós mesmos construímos.

Muito se tem escrito sobre o impacto da pandemia na vida e na sociedade, muita da análise histórica nos ajuda a extrair lições úteis para o momento, contudo, o passado não é o nosso tempo.

O nosso tempo é do de uma verdade que ultrapassou a pós-modernidade. O nosso tempo é o de sermos livres, querendo deixar para trás a memória de tudo e apenas recordando as conquistas de Abril, mesmo que ainda tantas estejam por alcançar.

Talvez esta preocupação social de desejarmos tanto espalhar ideologias e direitos, de reivindicarmos tanta igualdade sem valorizarmos a diferença, este espírito de tudo querer, tenha ocupado demasiado a consciência colectiva e colocado de lado a tal responsabilidade individual, expressão do espírito gregário de cooperação mútua, de cidadania e cimento da civilização.

E aí, creio que, como sociedade do pós-25 de Abril, nós falhámos! Os interesses das múltiplas tribos em que se agrupou a sociedade, da política ao futebol, a quem tudo serve de protesto ou de comemoração, foram imagens de um falhanço global de cidadania responsável.

É que neste momento, neste tempo que é o nosso, este vírus que nos está a colocar à beira da loucura, que tanto tem contribuído para a destruição da liberdade e dos valores que são pilares de uma sociedade, tem dado espaço a que novos arautos do contra-sistema se apresentem como taumaturgos que curam os males da Constituição e das conquistas de Abril.

Creio que nestes 46 anos de democracia, falhou muita da educação cívica que agora, talvez subvertidamente, se tem trazido às escolas, seja pelo apelo à responsabilidade individual seja pela preocupação para com o bem comum, que se destina a todos, mas que parte de cada um.

E é daí que volto à questão inicial: o último ano pode descontar-se à nossa liberdade, mas e os anteriores? Não foram eles uma perda de oportunidade para solidificar a tal liberdade que parte de uma consciência individual para formar o bem geral? Ou apenas se usaram os cravos para o desbloquear de tabus, para o alpinismo social de um “novo riquismo” alcançado, para a elevação de uma burguesia em desejos de nobreza?

Abril é uma lição! Voltemos atrás, se preciso for, aos bancos da nossa escola primária para reaprender os verdadeiros valores que floresceram com aquela Primavera.

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