Na Banda de Pais não há idade para aprender

Na Banda da Covilhã, há dois meses que uma turma de 25 adultos começou do zero a aprender música. Mais uma forma de captar elementos para a filarmónica, mas, sobretudo, uma ponte para reforçar laços com os filhos, através de mais um interesse em comum
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Por vezes a nota não sai. Outras soa desafinada. Conseguir coordenar a leitura da partitura com o posicionamento dos dedos, a postura correcta e a respiração, não é tarefa fácil. “Ele não me obedece”, brinca uma das alunas da Orquestra de Pais da Banda da Covilhã, com o clarinete na mão, para de seguida repetir e fazer ouvir o som pretendido.

Hoje, nos ensaios de naipe e depois na primeira aula conjunta, já há quem consiga tocar melodias, mas há dois meses, quando a turma de 25 adultos, pais de alunos da Banda da Covilhã, se juntou pela primeira vez, não sabiam ler uma pauta. Com excepção de uma pessoa, todos partiram do zero para a aventura de aprender música no mesmo sítio onde os filhos começaram a tocar os primeiros sons.

Com 16 anos, e há dez com uma relação próxima com o clarinete, Ana Sofia Marques já fez da música verbo e foi com satisfação que viu a mãe pegar no mesmo instrumento, o pai iniciar-se na percussão e o padrinho cumprir o desejo de se aventurar no saxofone. “Nunca tiveram música e é uma experiência completamente diferente. Achei engraçado quererem aprender, é um desafio para eles e para mim também, uma oportunidade de se iniciarem na música e de eu lhes poder ensinar alguma coisa”, salienta a estudante, que assiste às dificuldades e hesitações da mãe e a ajuda a corrigir o que o curto tempo de aprendizagem ainda não permitiu aperfeiçoar.

Havia 16 vagas, mas são 25 alunos

Há apenas dois meses, as notas, claves, breves e semibreves não eram mais do que símbolos, riscos e bolinhas a que não conseguiam atribuir uma relação. Nas primeiras aulas, teóricas, aprenderam a ler uma pauta, os ritmos, numa metodologia de ensino em conjunto, que permite que a turma toda progrida dentro do mesmo nível.

“Com isso, depois é matemática. É fazer contas, dividir as notas e aprender as posições no instrumento”, realça, com o entusiasmo característico, José Eduardo Cavado, o presidente da Banda da Covilhã que, com uma inquietação permanente, não permite à instituição sossegar, abraçando sucessivamente novos projectos e transformando-a num espaço dinâmico, a olhar sempre mais para o futuro do que para os 150 anos de história.

A ideia, explica, nasceu da vontade de alguns pais, que perguntavam se havia aulas para adultos, “mas ganhou pernas e vai muito além”. O intuito é, sobretudo, “fortalecer relações e criar canais de comunicação entre pais e filhos, através da música”. Havia 16 vagas, mas a turma começou com 25 alunos e há lista de espera para um segundo grupo.

A Banda adquiriu instrumentos novos para os alunos e os deles foram entregues aos adultos. Com a necessidade de chamar mais professores, para acelerar o ritmo da aprendizagem, a compra de instrumentos e consumíveis e o ensino gratuito nesta turma especial, o projecto representa “um esforço muito grande”, de cerca de 15 mil euros, para a instituição, com sede junto ao Jardim Público.

O investimento tem como retorno o entusiasmo, o prazer da descoberta de novos caminhos na música e o incentivo que pode representar para os filhos. Eduardo Cavaco refere que um músico é como “uma planta ainda frágil”. Ter os pais na Banda é como a tala que se vê ao lado da planta “para que ela cresça direita e ainda mais forte”, compara o director, que acredita poderem ser um apoio importante em momentos em que os filhos possam fraquejar.

Filha dá dicas à mãe

Com os estojos aveludados abertos nas mesas atrás e as estantes à frente, no auditório Júlio Cardona a classe dos clarinetes acompanha os exercícios, enquanto a professora acompanha com o estalar dos dedos os tempos. “Já me dói o dedo”, comenta uma das alunas. “Ai, esqueci-me do Mi”, lamenta outra. “É difícil olhar para quem dirige, ler a pauta e confirmar o posicionamento dos dedos”, queixa-se uma terceira. Quando uma nota destoa de forma muito evidente, troam gargalhadas, para logo se concentrarem.

“Quanto mais buracos temos de tapar, mais temos de soprar”, elucida a professora, Bárbara. “Enganaram-se, sigam em frente, desde que não toquem nas pausas”, acrescenta. “Aí só falta soprar mais”, recomenda. Na sala ao lado, alguém se esqueceu como se faz o Lá no saxofone. Alice, de dez anos, há quatro familiarizada com o instrumento, dá uma ajuda e de seguida aproxima-se da mãe, Kelly O`Hara, para lhe ajustar a posição dos dedos e faz a melodia para que a acompanhem no “Ré, Ré, Ré”.

Quando foi desafiada por Eduardo Cavaco a integrar a Banda de Pais, respondeu-lhe que nada sabia de música, nem ler uma partitura. Escolheu o saxofone por ser também o instrumento da filha e, em vez de ensinar a filha ou os alunos na universidade, como está habituada, dá por si a receber dicar e conselhos de Alice, que a ajuda e lhe dá apoio, mas também “é exigente”, garante a mãe.

Para já, toca algumas notas soltas e está em processo de adaptação à boquilha. Pensava que a fase inicial fosse mais demorada. A pegar no instrumento na segunda aula, considera difícil controlar a partitura e o instrumento. No saxofone, tenta apanhar o jeito à boquilha, “que é uma coisa que, tal como no desporto, ainda não está mecanizada a acção”. Para a filha, é uma novidade explicar a melhor forma para não falhar a embocadura e ensinar à mãe o que para si já é natural. “Normalmente é mais ao contrário”, comenta Alice.

“É difícil, mas já noto uma evolução”

Não é simples articular várias tarefas numa fase inicial e coordenar diferentes processos torna-se complexo para quem há pouco tempo aprendeu a montar e a pegar no instrumento, mas já se notam progressos e fazê-lo em conjunto, partindo do mesmo patamar, facilita a aprendizagem, torna o ambiente mais descontraído e ninguém estranha falhas alheias.

“É difícil, mas já noto uma evolução. Antes nem conseguia soprar, agora já faço cinco notas”, avalia, de sorriso inteiro, a assistente técnica Marta Ferrinho, 43 anos e a explorar os preceitos do clarinete. A inexorável passagem do tempo fez esquecer as poucas noções que tinha de educação musical, na época da escola. Sempre quis aprender. Nunca se proporcionou. Com a filha no ensino do mesmo instrumento e o filho na percussão, esta foi a oportunidade para integrar o grupo de futuros músicos.

Enquanto olha atentamente para a flauta transversal e a manuseia, ao mesmo tempo que desvia o olhar para o manual com elementos de solfejo, Pedro Rodrigues, empresário de 54 anos, graceja que toca “campainhas” quando é questionado sobre os conhecimentos na música.

A filha está a aprender piano e esta foi uma forma de se “envolver na mesma actividade”. “É mais uma forma de nos aproximarmos deles e de partilharmos mais alguma coisa”. Do gosto em ouvir música, quis também tocar. “É tudo razoavelmente difícil”, especialmente quando falta o tempo para praticar em casa, embora acentue ser “uma questão de persistência” e dedicação.

Na mesma sala, Helena Santarém, auxiliar escolar, de 47 anos, recorda que “não sabia nada” e aprender música “nunca foi uma prioridade”, mas aproximou-se da Banda da Covilhã para acompanhar os dois filhos e o estímulo deles empurrou-a para esta nova etapa, tal como ao marido, a quem calhou o eufónio.

“Pôr os dedos na posição correcta e coordenar o resto para sair bem o som é mais difícil do que eu pensava”, admite Helena Santarém.

“Na música, não existe idade”

O trabalho e outras actividades obrigaram Marco Costa, de 44 anos, a desistir na primeira vez que entrou na Banda da Covilhã. A vontade é agora ainda maior e, por iniciativa própria, e perante o aplauso do filho, aprendiz no trombone, regressou, para desvendar os segredos da volumosa tuba e conseguir integrar a banda filarmónica. “Partir do zero, ajuda. Estamos no normal processo de habituação às regras e aos sons”, descreve.

No primeiro ensaio “tutti”, o maestro, em cima do estrado e discurso afável, explica os movimentos de rotação, diz como se deve fazer a respiração em cada instrumento, causa surpresa ao perceber de imediato de onde vem cada nota desencontrada, tranquiliza um dos alunos que ficou zonzo ao soprar e dá ideias sobre exercícios para aumentar o fôlego.

A Banda de Pais, além de poder contribuir para que a filarmónica tenha mais elementos, “fortalece a relação com os filhos”, com mais um interesse em comum. O maestro enfatiza que o projecto mostra que “na música, não existe idade”. “Não existindo limitações físicas, a forma de aprender é igual, basta as pessoas quererem e a coisa acontece”, vinca.

Carlos Almeida frisa os benefícios da música no quotidiano, ao “melhorar a concentração, a forma de estar, a rapidez de raciocínio”. “Trabalha a parte cerebral e desenvolve outras capacidades”, acrescenta. A forma de estar e de ensinar “é sempre relaxada”. A diferença é que, no caso dos adultos, a exigência com o estudo fora das aulas não é a mesma, devido aos afazeres profissionais e familiares.

As aulas são às quintas-feiras, uma hora por semana, e o tempo que demora até se conseguir tocar, depende da dedicação ao instrumento.

“Gostava de os ver todos na banda”

Segundo Eduardo Cavaco, além de aproximar gerações e permitir o convívio após períodos longos de confinamento, na Banda de Pais “ao mesmo tempo estão-se a enriquecer a eles próprios e a aprenderem uma linguagem que é mais universal do mundo”. “Também estamos a contribuir para criar públicos mais conhecedores do que se está a passar muitas vezes num concerto”, sublinha o presidente da centenária instituição.

Carlos Almeida “gostava de os ver todos na banda” e acredita que “alguns vão lá chegar”. Para Ana Sofia Marques, “seria maravilhoso tocar um dia ao lado” dos pais.

Há nove anos, a Banda da Covilhã criou a “Música de Filhos Para Pais”, turma de dez pessoas onde se formaram três que integraram a filarmónica. Um deles continua a fazer parte das fileiras da Banda da Covilhã, ao lado de um filho, na tuba, outro no trompete e a filha, na flauta.

Eduardo Cavaco, remoinho de pensamentos em forma de gente, promete continuar a transformar ideias em acção e a descobrir talentos, que, afiança, não têm idade para começarem a despontar.

 

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