Na noite das autárquicas de 2021

A abstenção não engana e surge de novo fortemente questionadora
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A. Pinto Pires

O processo autárquico de 2021, na Covilhã, não surpreendeu pelos resultados, de alguma forma já esperados, sem grandes novidades e escassas surpresas. Já de Lisboa, veio sem dúvida um aviso para António Costa e sobretudo para o interior do PS.

Chamar-lhe-ia processo eleitoral conjuntural. Há momentos assim e conjunturas que o determinam, aliás, não apenas no concelho da Covilhã, um pouco / muito por todo o País.

O fenómeno Vítor Pereira, VP, assim como foi o de Carlos Pinto, CP, decorre, indubitavelmente das circunstâncias. No caso de VP, dois mandatos muito lineares, marcados por muitas intenções, alguma paz circunstancial, mas sem oposição consistente ou frontal, algo fragmentada. Fatores proporcionadores dessa paz letárgica a que temos assistido. Até ausente de comprometimentos político-pessoais. O caso do Tinte Velho foi um deles, uma obra complexa e confrangedora, agora interrompida e entupir caminho, apenas questionada pela CDU.

Deste processo eleitoral, não pode alhear-se o fator PPD/PSD. Um partido desmembrado após os mandatos de CP, que não se preocupou em unir o partido e fomentar sucessão. Antes pelo contrário, sai do seu périplo autárquico em rota de colisão com todos os putativos elementos que poderiam ter proporcionado ao partido uma travessia no sentido de se preparar para os embates seguintes numa perspetiva unitária e de futuro. O apoio a João Morgado, pecou por indefinição, protagonismos e tardio saindo deste processo, o mais prejudicado. Já se esperava.

Uma direita dividida, marcada por curiosos paradoxos, esgrimida de forma muito ténue entre João Morgado e Pedro Farromba, o mais ganhador neste processo, ambos disputando o mesmo espaço eleitoral, aumentando por certo o cepticismo de uma direita destroçada, bem como de um CDS algo esbatido no plano da implementação, que ganha “entourage” com o fenómeno Adolfo Mesquita Nunes secundado por José Horta, outro entusiasta desta miríade. A Assembleia Municipal vai por certo alterar as suas dinâmicas, os números estão aí.

Também e ainda, um PS que não se renovou e preferiu apostar no lema do não se mexer em equipas ganhadoras. Este seria o momento ideal para apresentar uma plêiade eleitoral, muito para além disso, projetos e ousadias, da cidade / concelho, já não apenas dos lanifícios, mas que se pretende do conhecimento, líder na inovação, não descurando as envolvências face a um futuro ainda possível de agarrar. Enquanto universitária, aguardamos com expectativa, podendo residir numa possível simbiose institucional, um futuro irreversível, assim haja visão!

No âmbito da esquerda democrática. A CDU ainda não se refez das glórias de outros tempos, crendo já ter havido tempo suficiente, para redefinir estratégias que deveriam passar pela criação de uma ampla frente de esquerda democrática englobando o BE, o Livre, independentes e muitos dos descontentes ou indecisos em crescendo pela urbe. A abstenção não engana e surge de novo fortemente questionadora. A sua ausência no seio do executivo camarário, tem feito falta ao exercício do poder autárquico. Jorge Fael, precisava de mais gente ao seu nível e daria por certo, um bom edil. Surgiu tarde de mais na corrida eleitoral.

A Covilhã continua carente de uma forte agenda cultural; de eixos estruturantes para o curto e médio prazo envolvendo todos os possíveis tecidos intervenientes, culturais, sociais e económicos. Caso o propósito seja continuar a tecer o futuro. Mas precisamos de mais tessitura.

Concluo com palavras de Bento Domingos, “Importa perder o medo de inovar, de avançar, pois é urgente ouvir, ver, sentir e entender o mundo contemporâneo”. Estamos aí.

 

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