“Não existe uma política de atracção de investimento”

João Morgado, candidato independente, apoiado pelo MPT, PPM e Aliança, afirma que a situação no município está muito pior do que imaginava, considera que a Covilhã perdeu liderança regional e credibilidade perante os investidores
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Notícias da Covilhã – Onde se pode situar esta candidatura, apoiada pelo MPT, PPM e Aliança, no espectro político?

 

João Morgado – Esta é uma candidatura cívica que saiu de um grupo de cidadãos, não saiu de nenhum partido. As pessoas que compõem a minha lista são, quase todas, gente que vem de novo para a política, que não tem uma actividade partidária. Queremos renovar a classe política, queremos trazer gente que tem provas dadas na sua actividade social e profissional e que entendeu que é momento certo para trabalhar para a sua cidade. O apoio partidário surge posteriormente. Em pandemia não fazia sentido andarmos de casa em casa a recolher as cinco mil assinaturas. O Partido da Terra ofereceu-se para nos acompanhar nesta caminhada e submeter a candidatura no tribunal, depois o PPM fez o mesmo e mais tarde a Aliança. Não nos impõem qualquer linha ideológica ou qualquer interesse. É uma candidatura de cidadãos que vem de diferentes áreas políticas, não se pode fazer a crivagem de direita ou esquerda. Eu escolhi as pessoas pelas suas qualidades e não pelas suas cores.

 

Qual a principal mais-valia desta equipa?

É uma equipa sem sujeições a ninguém. É verdade que não temos dinheiro para fazer a campanha, mas também não devemos dinheiro ou favores a ninguém, essa é uma vantagem. São pessoas que podem defender o que querem, porque não têm de pedir autorização a ninguém, são pessoas que alteraram a sua vida para intervir politicamente. O que está em causa nas próximas eleições não é votar no partido A ou B, é decidir se queremos que os nossos filhos permaneçam na região ou se vão embora.

Porque entende ser a pessoa certa?

Disponibilizei-me porque tive muita gente que me induziu nesse sentido, na medida em que eu tenho uma experiência autárquica, porque trabalhei com três presidentes de câmara, que são três grandes líderes regionais, e bebi da experiência deles, percebi o funcionamento das autarquias. Era a altura certa para pôr essa minha experiência ao serviço da minha cidade e estou muito empenhado, porque quero que a Covilhã volta a ser líder. Sempre fomos líderes e neste momento somos uma sombra do Fundão. Nós temos um potencial que não se pode perder. A Covilhã está a deixar fugir o turismo, está a deixar fugir as empresas, temos um hospital universitário e não conseguimos criar aqui um ´cluster` de empresas ligado à saúde, temos uma universidade em que entram centenas de jovens e depois deixamo-los ir embora.

 

O que o leva a afirmar que a Covilhã perdeu credibilidade?

Perdemos claramente liderança regional. A Covilhã não tem força política na região, muito menos a nível nacional, por isso é que vamos perdendo investimentos que vão para outros concelhos, porque as câmaras também estão em concorrência umas com as outras, portanto, temos de ser competitivos e oferecer credibilidade, e ela não existe. Todos os dias há um processo mal explicado na Covilhã. Ainda agora o Presidente da República vetou o diploma que salvou Vítor Pereira de perder o mandato, porque o secretário de Estado do PS meteu o processo um ano e meio na gaveta. Temos processos em tribunal porque perdoou 350 mil euros à família Santos Silva, depois temos os contratos feitos com empresas que ninguém conhece ou que foram constituídas dois dias antes. Há sempre processos mal explicados na Câmara da Covilhã e é por isso que o investidor quando chega aqui tem dificuldade em trabalhar com esta câmara, porque não confia. Nós temos investidores que chegaram à câmara e não foram recebidos ou foram recebidos por um assessor. Isto não dá confiança a quem quer investir na região. Portanto, temos de ter uma equipa com credibilidade, profissional, que possa desenvolver a Covilhã. Neste momento a câmara está transformada na sede do Partido Socialista, onde estão todos os amigos e camaradas. Isto não é uma equipa profissional. Eles ganham, mas a Covilhã não ganha.

Diz ter percebido que a situação no município é pior do que imaginava. Em que domínio? 

Em todos. Tenho andado no terreno, a falar com empresários, com colectividades, e percebo o descontentamento e o desânimo das pessoas. Os empresários têm dificuldade em fazer aprovar qualquer coisa na câmara, têm dificuldades em fazer investimentos, também não acreditam nas pessoas que não respondem sequer aos e-mails. Nas colectividades, onde pensei que as coisas estivessem melhores, porque no fórum sobre associativismo ouvi toda a gente a fazer elogios à câmara, a verdade é que agora, passando pelas associações, há um descontentamento muito grande. Houve uma evolução, porque temos um interlocutor na câmara que fala com as associações é óptimo termos um regulamento, que é uma boa base de trabalho, mas a partir daí há um descontrolo. Continuamos a ter sedes que não estão legalizadas, apoios que não estão pagos, promessas que não estão concretizados. Candidatei-me a pensar que as coisas estavam mal, hoje digo que estão muito pior do que imaginava e isso só me dá mais alento e força para continuar esta caminhada para transformar a Covilhã.

A criação de emprego foi apontada como uma prioridade. Qual a estratégia para atrair empresas com um potencial de cinco mil postos de trabalho em quatro anos, como promete?

Na Covilhã temos grandes trunfos, um deles é a UBI. Todos os anos formamos centenas de pessoas e nós não podemos ser uma ponte na qual vemos passar o rio, temos de ser uma barragem, temos de fazer com que esta gente fique aqui. Isso faz-se tendo aqui empresas que criem postos de trabalho bem remunerados, e isso implica a captação de investimento exterior. Eu sou vice-presidente da Câmara de Comércio da Região das Beiras. No último ano consegui trazer três empresas espanholas para a Covilhã e não tenho nada para lhes oferecer em termos de terrenos ou isenção de taxas. O que fiz foi mostrar-lhes as potencialidades e as oportunidades de negócios.

Isso é suficiente?

Só assim consegui trazer três empresas. Se estivesse na câmara e tivesse factores que pudesse mexer para atrair essas empresas, conseguiria muito mais. Tem que ver com dinamismo, porque não podemos estar à espera que as pessoas nos batam à porta, temos de ir à procura delas. É preciso fazer pontes, chamar pessoas. Se eu posso fazer isso através de uma Câmara de Comércio, uma câmara municipal devia tê-lo feito. Tem de ter um gabinete técnico que faça estes contactos, que vá aos sítios, que mostre as potencialidades da Covilhã. Porque é que não temos um ´cluster` de empresas tecnológicas ao redor do Data Center? Aquela área toda devia ser um parque tecnológico, não como o Parkurbis, que é uma fraude. Neste momento temos lá um administrador que ganha uma fortuna só para recolher as rendas do aluguer do espaço no final do mês. Não existe uma política de atracção de investimento.

 

O que o leva a fazer essa afirmação?

Tenho conhecimento de empresários que vieram do estrangeiro aqui à Covilhã e foram recebidos por assessores. Um empresário, quando vem do estrangeiro e chega cá, quer falar com a pessoa que decide. Qual é a confiança que os empresários têm para trazer milhões para investir aqui? Esse tipo de situações não pode acontecer e eu conheço várias. Porque é que a IBM vai para o Fundão e não vem para a Covilhã? Contactaram a Covilhã, pediram-lhes apoios, não foi dada essa resposta e foram para o Fundão.

“Garanto que é possível uma redução de 35% na factura da água”

 

Propõe-se reduzir em 35% a factura da água. Como vai ser feito e em que prazos?

Há quatro anos o PS prometeu o mesmo, portanto, eles sabem que é possível. Não fizeram porque não quiseram. Há um lucro que as águas dão, mas esse excedente está utilizado para pagar as centenas de pessoas que foram trabalhar para a Câmara Municipal. Neste momento, a Câmara Municipal tem o dobro de funcionários que tinha há oito anos e é necessário dinheiro para pagar todos os ordenados e para pagar todos os que foram promovidos a chefias e aumentaram os seus ordenados. A mais-valia das águas, em vez de ser investida nas águas, para poder baixar as faturas, está a ser utilizada para pagar ordenados e isto é verdadeiramente escandaloso.

 

Como pretende concretizar essa intenção?

Estes não são processos isolados, têm de ser enquadrados na política do município, têm de ser renegociadas outro tipo de situações, mas eu sei como se faz e garanto que é possível uma redução de 35% na factura da água, não há problemas. Quando o PS prometeu há quatro anos também sabia. Não o quis fazer. Eu quero fazer, sei como se faz e vou fazê-lo, porque as pessoas têm pagado uma fortuna pela água.

Mexendo em quê?

Mexendo em tudo, porque é preciso renegociar várias coisas e que parte do lucro das águas seja reinvestido na própria empresa, para se conseguir equilibrar as contas.

Para ser feito em que prazo?

Não posso garantir que seja no primeiro ano, mas é no primeiro mandato, certamente, isso é um ponto de honra, uma bandeira, não haverá falhas nesta promessa.

Nas áreas da cultura e do desporto, quais são as preocupações e medidas a implementar?

A captação de empresas vai alavancar tudo. Nos últimos anos perdemos 5500 pessoas. Algo está errado na Covilhã para deixarmos perder tanta gente se esta é uma cidade com uma universidade, que está a receber jovens todos os anos. Primeiro temos de reunir as pessoas para desenvolvermos tudo o resto. Na área do desporto acho um erro estarmos a fazer investimentos no pavilhão do INATEL, acho que se deve fazer um pavilhão multiusos para efeitos desportivos e não só. Temos de fazer algo de raiz.

E na cultura?

O Teatro Municipal, ao fim de oito anos, é uma obra que não está completa e a câmara ainda não conseguiu explicar porquê. Eu sei dos erros, os trabalhos a mais que levaram esta obra para o dobro do dinheiro e para metade da obra. Nós não temos outros espaços em volta, as associações estão a olhar para o Teatro Municipal como uma saída, mas já perceberam que não lhes vai dar a resposta de que necessitam. Temos de criar condições para que os nossos possam levar espectáculos para fora do concelho e ter uma agenda que permita que outros venham ao nosso concelho. Já não falo em termos de literatura, para não falar em causa própria. A câmara nunca me comprou um livro, nem me deu os parabéns quando recebi os prémios literários.

Tendo em conta que os municípios competem entre si pelos investimentos, existe abertura para criar a Agência de Desenvolvimento para a Cova da Beira, que defende?

Enquanto não tivermos uma voz única não temos uma voz activa. Só os três juntos é que podem trabalhar. De haver uma agenda única, uma junção entre os três presidentes de câmara, que têm de criar uma estratégia para a região, complementar. Não podemos pensar em quintinhas. Se vamos fazer um investimento, que seja um investimento que sirva a Cova da Beira. Quem tiver vontade de desenvolver a região não pode estar a olhar para a Cova da Beira dizer que há fronteiras e há limites.

 

Em que é que ter um vereador com o pelouro da UBI se pode traduzir?

Primeiramente, é simbólico. É assumirmos claramente a importância que a UBI tem no desenvolvimento da região. Ela tem sido utilizada nos discursos oficiais, mas depois, na prática, tem havido um diálogo muito difícil entre a Câmara Municipal da Covilhã e a universidade. Por exemplo, a UBI tem problemas de subfinanciamento. Onde é que está a acção política da Câmara da Covilhã? Eu, se fosse presidente, agarrava no reitor e ia com ele a Lisboa falar com os ministros. Falta uma acção politicamente concreta ao assumir a defesa da UBI. Este Governo é da mesma cor, mais uma razão para batermos à porta e termos a certeza que as portas se abrem, ou então Vítor Pereira tem de reconhecer que nem o Governo da sua cor lhe abre as portas e que saindo do Pelourinho não tem influência.

 

Contava com um apoio político mais alargado, com o apoio do PSD?

Eu contava com o apoio das pessoas e essas pessoas estão claramente a aparecer. Temos de dividir o PSD numa estrutura política com meia dúzia de pessoas e temos o PSD que são os militantes e as pessoas que habitualmente votam no PSD. São duas coisas diferentes. Há um grupo que diz que é o PSD, mas que é uma estrutura de meia dúzia de pessoas. Essa não me deu apoio e não há problema nenhum, agora, o PSD, neste momento, está órfão de candidato. A candidatura que temos no terreno é uma candidatura que veio do CDS em Lisboa, os principais candidatos são do CDS e o PSD está num papel subalterno. Eu diria mesmo que está humilhado e vem dizer aos seus militantes que agora têm de votar naqueles que andaram a combater.

 

Aceitaria o apoio do Chega, se isso estivesse em cima da mesa?

[Pausa] Todas as forças políticas são livres de manifestarem apoios e não vou individualizar nenhum partido, porque os que estão a apoiar-me são conhecidos.

Qual é o seu principal adversário?

É a abstenção, porque é aí que as coisas se vão decidir. Nas últimas eleições autárquicas tivemos 40% de abstenção. As pessoas têm de ter a consciência que estamos a discutir o futuro das nossas famílias e têm de começar a olhar para a política de uma maneira séria. Podem não gostar da política, mas é na política que se o seu futuro é decidido.

Apresenta-se como o candidato que não é repetido. Acredita que isso é uma vantagem?

Significa que os outros são mais do mesmo. Eu sou o candidato que se apresenta pela primeira vez, trago a minha experiência em termos de gestão autárquica, de ter conhecido outras experiências autárquicas. Trago um discurso e uma equipa nova, que vem de todo o concelho. Todo o território tem de crescer de forma coesa e, quando falo nas empresas de novas tecnologias, temos os nómadas digitais. Temos de criar uma constelação de aldeias à volta da cidade que sejam pequenas cidades, mas, para essas pessoas e empresas se instalarem, temos de criar condições mínimas para elas se tornarem atractivas.

 

Existiu uma polémica por ter sido vacinado quando a vacina só estava disponível para idosos e trabalhadores prioritários. Quer explicar?

Isso só foi empolado por eu ser candidato à Câmara Municipal da Covilhã e houve pessoas que acharam que através do ataque pessoal poderiam acabar com esta candidatura. Na Mutualista não houve um único caso de vírus. Toda a área administrativa funciona naquele edifício. Pelo tempo que estávamos a viver, eu era presença assídua na associação. Tive de estar mais próximo da direcção, até porque havia que tomar algumas decisões urgentes e eu não podia fazer reuniões de Assembleia Geral. Nessa altura estávamos também a lançar um outro projecto, que é uma casa de acolhimento para jovens refugiados, e alguns chegaram cá em Dezembro com covid. Eu tinha de ser obrigatoriamente vacinado, a vacina ocorreu com o conhecimento da Segurança Social e fui vacinado porque os corpos sociais podiam e deviam ser vacinados, não foi uma vacina indevida, não foi tirada a ninguém, não foi tomada às escuras. Foi perfeitamente legal, claro e obrigatório.

 

O que considera um bom resultado?

Só a vitória interessa.

E se ela não acontecer?

Se não acontecer eu tenho um compromisso com a Covilhã, de que haverá uma oposição forte, presente e activa.

Perfil

João Morgado, nascido há 56 anos em Aldeia do Carvalho, reside na Covilhã, onde faz questão de dizer que vai continuar a viver “após as eleições”. Foi operário têxtil, jornalista, é escritor com vários livros premiados e foi até ao ano passado chefe de gabinete do presidente da Câmara de Belmonte.

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