Não tínhamos memória deste luto

O impedimento de estar perto dos que partem, de os velar e honrar como merecem, pode ser verdadeiramente caótico para quem sofre
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O ciclo da vida carrega consigo numerosas perdas, de natureza diferente, que trazem rupturas afectivas, morte dos entes queridos, abdicação de ideais a nível pessoal ou profissional, e tantas formas de dor, cada uma sempre inexplicável. Porém, desde Março de 2020, a palavra luto passou a ter um peso ainda maior e de uma nova forma de ser vivido, porque a pandemia até nesse processo penoso da morte veio alterar hábitos culturais, religiosos e afectivos.

São várias as vozes que apontam como “consequências a longo prazo”, as condicionantes em que tantas famílias tiveram de fazer a sua despedida, ou a ausência dela, dos que foram partindo ao longo deste ano e meio.

As enfermarias hospitalares fechadas a visitas, a impossibilidade de velar os corpos dos que amavam, a distância dos abraços e dos amigos que consolam, foram dos dados mais duros a ser experimentados durante estes processos terríveis.

Para além disso, cultural e religiosamente, faltou aquela celebração de oração e consolação que sempre traz a missa de corpo presente, o cortejo para o cemitério, a possibilidade de sentir o Deus da Vida mais próximo de quem vive tamanha dor.

A nossa geração não tem memória de uma dificuldade assim. Nunca assistimos a uma taxa de mortalidade tão elevada, nunca tínhamos assistido a um problema de saúde pública que levasse a este limite provocador de um número de mortos tão elevado.

Por isso, e se todo o luto é difícil, mais difícil fica saber como lidar com ele e como falar dele. Toda esta forma e vivência da realidade levam-nos a sentirmo-nos desarmados e sem capacidade de enfrentar o sofrimento provocado. Tornámo-nos ainda mais vulneráveis perante a perda e apercebemo-nos que, como nunca, é cada vez mais recorrente a ajuda à medicina mental, para ajudar a ultrapassar processos.

O luto em si é sempre um processo complexo, que depende de inúmeras variáveis e que nunca pode ser tratado da mesma forma. Isto porque nenhum luto é igual ao outro. Cada pessoa vivencia o luto de forma diferente dependendo de inúmeros factores, desde o meio em que está inserido e o próprio contexto da perda em si. Tudo pode influenciar o modo como enfrentamos os nossos lutos, mas o impedimento de estar perto dos que partem, de os velar e honrar como merecem, pode ser verdadeiramente caótico para quem sofre.

Mais do que nunca, também precisamos de recuperar o sentido da “esperança cristã”. Não uma esperança feita de passividade e de resignação ao impossível, mas antes de uma atitude de renovação interior, acalentada pela certeza da ressurreição: a única capaz de dar algum sentido ao doloroso processo da morte.

 E só nesta renovação de um “crer na vida eterna” podemos reconhecer que as nossas despedidas, apesar de nos fazerem tanta falta e tanta “mossa”, são compensadas pela certeza de que os que partem receberão um abraço eterno, que nós não lhe pudemos dar.

Num tempo de instabilidade e de uma crescente indiferença religiosa, recuperar esta certeza é um dos remédios essenciais para suportar o incompreensível, o injusto e o sem sentido, com que se debate a nossa limitação humana.

Nunca vimos coisa assim, e por isso recuperar “as razões da nossa esperança” será o melhor remédio para esta crónica dor que a saudade nunca cura.

 

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