Notícias da Covilhã, um jornal nascido d´ A Democracia

De boa cepa, a criança vingou, espigou, saiu robusta e está aí centenária
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José Avelino Gonçalves*

A vida não está fácil para os católicos. O sangue azul dos republicanos corre nas ruas do reino, o barrete frígio está na moda, impunha-se! A Igreja era perseguida, a República dilacerava as almas dos crentes. As imagens eram queimadas no Bombarral, lançadas de Almada ao Tejo. Os padres espoliados pareciam mendigos.

O dia em que a imprensa não regista qualquer violência contra o clero católico, é um dia perdido para a República. Os sacerdotes, que se atrevam a usar o seu hábito talar na rua, são presos. Calca-se a Constituição como trapo bolorento, fecha-se o jornal católico “Sul da Beira”, que rabiscava tolices e pegara-se com a “Covilhã Nova”, que era o fel dos jacobinos!

Naquela manhã de Janeiro de 1913 chovia, uma chuva fina, pegajosa, fria. Os passantes recolhiam-se nas arcadas da câmara, dão de ventas com o cívico Neto, que cocava os senhores padres! Andava já com os machinhos tão carregados que parecia irmão da Confraria de S. Martinho!

O padre José Fino Beja, José da Silva Secca e Nicolau Alberto Ferreira d´Almeida, “conspiravam” no n.º 12 da rua Comendador Mendes Veiga. Faziam parte da panelinha contra os republicanos, partejava-se um novo jornal! Na defesa integral dos direitos de Deus e da Igreja, ainda que com sacrifício da própria vida.

Discute-se a sua “graça”. O Nicolau d´Almeida, que já tinha experiência na edição e publicação de jornais e não era muito dado a nomes, atreve-se a sugerir “Notícias da Covilhã”. Os compinchas rejeitam “in limine”! Que o associavam ao outro “Notícias da Covilhã”, órgão do partido regenerador, e que fora distribuído em 1909. Mete a viola no saco! O bom do padre Beja, mais honrado que juiz de paz, saboreava o seu calicezinho de porto, colheita de 1815. Limpa os beiços, untados pelo néctar dos deuses, pigarreou muito e atira para a discussão, tremendamente barulhenta: – “A Democracia”! A pandilha aceita logo, o editor chalaça muito! Que o título não seria levado ao registo civil, uma invenção do “demonho”!

Desancam fortemente nos caudilhos do regime! Como é possível que em pleno século XX se permita que a Igreja seja vexada na pessoa dos seus pastores, oprimida e calcada nas suas liberdades? Levam à sua bandeira o augusto lema: “Deus Pátria e Liberdade”. A nova publicação toma-se de amores pela “Justiça” um jornal “vendido” ao partido Republicano Português, cheio de “lampanas”, com um director “lanzudo”!

O escrito dura até Fevereiro de 1919! O feroz administrador Ferraz das Barbas manda prender António Catalão, o seu director. A censura republicana suspende o jornal na sua edição número trezentos e dez, mas não os ideais dos “conspiradores”, daquela manhã frígida do dia 12 de Janeiro 1913.

Renasce no dia 18 de Maio de 1919, com outro nome, mas com a mesma Alma! O “Notícias da Covilhã” é o sucessor d´ “A Democracia”. De boa cepa, a criança vingou, espigou, saiu robusta e está aí centenária! Um “jornal de inspiração cristã, promotor dos valores e dos direitos do homem com base na verdade, na justiça e na solidariedade, orientado por critérios de rigor, com independência dos grupos económicos e ideológicos, dando voz aos que não têm voz”.

*juíz

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