O 6 de Setembro e o caminho de ferro

Uma linha estratégica, com futuro
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António Pinto Pires*

Em 1992, surgia na Covilhã, a associação “O 6 de Setembro, Grupo de Amigos do Caminho de Ferro da Beira Baixa” como forma de assinalar o 1º centenário da Linha de Caminho de Ferro da Beira Baixa, cujas comemorações decorreram em Castelo Branco, Fundão e Covilhã. E que resultou da dinâmica criada pela então comissão executiva para as referidas comemorações, que decorreram no ano de 1991.

As comemorações tiveram como epicentro a Covilhã, onde foi inaugurada uma exposição alusiva ao evento, no então espaço Montalto. A sessão solene alusiva teve lugar no salão nobre do município do Fundão, tendo presidido o então presidente da Câmara, Sampaio Lopes e o Governador Civil do Distrito, Alberto Alçada Rosa. Nesse mesmo dia, e no Fundão, no então terminal de mercadorias, a CP apresentou publicamente, e pela primeira vez, as carruagens climatizadas, que viriam a integrar os novos serviços intercidades.

Entretanto, no dia 6 de Setembro de 1991, na estação da Covilhã, foi batizada uma locomotiva com o nome de Beira Baixa. Foi ainda descerrada uma placa e painel alusivos, tendo presidido ao referido ato o Dr. Aires de Sá, em representação do município.

Há 30 anos, a exploração da Linha apresentava uma matriz muito diferente da atual. A eletrificação ainda estava longe de chegar às terras beirãs. A exploração diesel era soberana e os comboios intercidades davam os primeiros ares da sua graça, efetuados em composições normais, apenas distintos pela tarja verde que encimava as carruagens. A rapidez do percurso era quase a mesma, o tempo de trajeto mais curto, ficava a dever-se à supressão das paragens em alguma estações e apeadeiros. O Tex, transporte expresso de mercadoria, ainda tinha alguma expressão.

Porém, houve tudo de muito nestas últimas décadas. Os comboios ainda circulavam no troço Covilhã Guarda o que permitiu que na década de 90 se criasse o “Comboio Académico”, que ligava o interior beirão ao Porto, os fins de semana e durante os períodos letivos. Um êxito que a CP, ao tempo, não soube preservar. De sul foram chegando as inevitáveis inovações e a eletrificação, de forma tarda e lenta, acabou por chegar à Covilhã. Entretanto, o abandono do troço Covilhã-Guarda era cada vez mais uma realidade, até ao seu encerramento por mais de uma década, não obstante a renovação entre Caria e Belmonte, só recentemente reaproveitada.

Outra grande novidade foi a climatização dos comboios intercidades e já mais tarde a introdução de automotoras no serviço regional, com as mesmas características. Mas como não há bela sem senão, a CP volta a pregar uma partida ao interior beirão, já por si tão castigado, procedendo à supressão dos comboios intercidades, feitos com máquinas e carruagens, substituindo-os por remoçadas automotoras suburbanas, mas sem perfil para assegurar um serviço que se pretendia dignificado. Como diz a gíria popular, andámos de cavalo para burro.  No caso pessoal, senti vergonha e ultraje, já que as viagens eram um constante pesadelo. Que o diga o escritor Manuel da Silva Ramos quem me secundou em infindáveis e incidentes protestos.

Não se podia acusar a A23 de causadora de todos os males. Tanto a CP como a Refer, de triste memória, olhavam para esta linha como um mal menor a manter e foi o que se viu. O tempo encarregou-se de repor os fatos e a verdade das questões.

O 6 de Setembro, logo de início, defendeu uma diferente exploração da Linha, que não distinguisse a Beira Alta da Beira Baixa. Não tem sido fácil este combate que ainda prossegue. E foi a inevitabilidade desse tempo, com o aproximar da renovação da Linha da Beira Alta, que as altas esferas repararam finalmente numa linha de estratégica importância, com futuro. Não poderemos esquecer a visão circunstancial de Pedro Nuno Santos, o ministro entusiasta do caminho de ferro, encetando-se algo que parecia impensável e do qual já muitos duvidavam. A renovação integral da linha entre a Covilhã e a Guarda.

Como diversas vezes já o referi publicamente, e reafirmo, Nuno Santos, de alguma forma secundado por Nuno Freitas, da CP, não foi secundado pela IP, Infraestruturas de Portugal, onde, e segundo diversas opiniões, faltou ousadia, sobretudo ao nível da correção do traçado. Basta ver o troço Covilhã-Caria e aferir das oportunidades perdidas. E lá vem de novo o aforismo popular: “cadelas apressadas têm os filhos cegos”.  Temos, na verdade, uma excelente infra-estrutura mas com uma média baixíssima de velocidade, 80Kms hora, numa linha onde foi investida uma fortuna. O eterno determinismo isolacionista da interioridade.

Linha com vocação para a exploração de comboios de mercadorias ou de passageiros. O dilema que importa esclarecer, e seria importante se fizesse.

O futuro? Muitas incógnitas. Na verdade, a CP brindou-nos com uma ligação diária direta a Coimbra, possibilitando a ida e regresso diários de forma confortável, mas que o grande público continua a desconhecer por falta de divulgação. É importante rever horários de serviço regional. Pensar que há um público a montante e a jusante, passível de utilizar o caminho de ferro nas suas deslocações diárias, o denominado serviço regional, do qual todos os autarcas têm falado, mas os resultados deixam ainda muito a desejar. A componente turística, outra fonte inesgotável que poderia trazer um grande impulso à região.

A nível internacional, outra possibilidade a não descurar, nomeadamente as ligações a Salamanca. Temos conhecimento haver por parte da CP uma visão estratégica de exploração para a Linha da Beira Baixa e Beira Alta. Porém, e é importante ter noção da realidade, esta empresa já não detém a auréola de outros tempos. Embora seja a principal operadora de comboios, tal não impede a entrada em cena de outros operadores.

O eixo das Beiras estará, por certo, muito vocacionado para os comboios de mercadorias como se perspetiva. Importa porém, continuar a pugnar por uma ampliação qualitativa dos serviços para o Norte do País. Não podemos alhear-nos das questões ambientais e da questão da descarbonização onde o caminho de ferro pode e deve ter um papel fundamental. Não está em causa uma concorrência com a rodovia, mas encarar com frontalidade os desafios que as mesmas questões nos colocam. A complementaridade nos modos de exploração, rodo e ferroviário, deverão ser uma realidade no futuro.

A nível local, o serviço combinado afigura-se emergente. Sabendo que os nichos de mercado são limitados para todos os operadores, uma operação concertada poderá trazer benefícios para os utilizadores.

E porque se trata de uma data festiva, e na qualidade de membro fundador de O 6 de Setembro, o orgulho que sentimos, e continuamos, em prosseguir na defesa duma causa tão nobre quanto esta a do caminho de ferro.

De entre os fundadores, já há muito que não temos entre nós. O Fernando Gil da Costa, um fundanense de gema, que adorava a sua linha e emprestou sempre, e em todos os momentos, um contributo inqualificável.

Também a nossa homenagem de admiração e respeito para Américo da Silva Ramalho, ao tempo responsável pelas relações públicas da CP, um parceiro sempre à altura, sem esquecer os afetos sempre demonstrados perante as nossas causas e posturas. Quanto gostaríamos de o ter entre nós, para lhe redobrar um agradecimento sem fim. Ao João Santos Marques Júnior, outro parceiro das andanças, evocamos a sua memória, outro lutador pela mesma causa que todos abraçámos.

Uma homenagem muito sentida, e porque estamos em modo de aniversário, a todos os ferroviários aos mais diversos níveis que nos ombrearam nesta saga de três décadas. Ao público anónimo que continua a apostar e crer no comboio. Mesmo por esse vale acima da Teixeira onde os da Benespera deram uma lição ao País ao exigir a reposição da dignidade eximida por mais de uma década.

À comunicação social, a todos sem excepção, um sentido reconhecimento pela forma determinada como sempre a questão da linha foi, e por certo continuará, a ser referenciada.  Viva O 6 Setembro. Viva a Linha da Beira Baixa.

*Fundador de “O 6 de Setembro, Grupo de Amigos do Caminho de Ferro da Beira Baixa”

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