O deserto cá de casa

Também o Papa vive num deserto dentro da sua casa. Muitas vezes sozinho na forma como deseja ver uma Igreja Viva
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A experiência espiritual da Quaresma, para os cristãos, desde há muito tem vindo a ser renovada no seu verdadeiro sentido e razão de ser. Necessariamente, ela está conotada com a experiência de Jesus que passou “40 dias e 40 noites no deserto” antes de iniciar o seu ministério de vida pública. Mas hoje a Quaresma já não é o tempo da mortificação, da abstinência dolorosa e da autoflagelação pelos erros cometidos ao longo do ano.

Graças a uma linguagem positiva e a uma teologia esclarecida, hoje, mais que nunca, a Quaresma é vista como um tempo de renovação pessoal, que convida cada crente a fazer uma descoberta de si mesmo e a desejar aperfeiçoar-se naquilo que é como pessoa em relação.

Numa repetição do que no ano passado sucedeu, o tempo quaresmal vai ser vivido, novamente, dentro de quatro paredes em que cada lar é o de deserto a que cada um está confinado. No entanto, sem que isso impeça à tal renovação e caminhada pessoal ou familiar que conduzirá até à Pascoa.

Viver dentro de quatro paredes, confinados a um espaço que se pode revelar claustrofóbico e nos retira alguma paz, porque as vivências familiares, o teletrabalho, as rotinas ou “as vistas” da janela são sempre as mesmas, é por si só um exercício de renovação completa e exigente. E é de aí que, parando para meditar a mensagem do Papa Francisco, renasce uma pequena luz que convida a renovar a nossa fé, a obter “a «água viva» da esperança” e receber “com o coração aberto o amor de Deus que nos transforma em irmãos e irmãs em Cristo”.

Toda a mensagem de Francisco é um grito de esperança. O Papa próximo das gentes consegue transmitir-nos, pela simplicidade da sua linguagem, que compreende as ânsias e angústias destes tempos e por isso é tão concreto e prático na forma como transmite a doutrina da Igreja que lidera, contra ventos e marés.

Tenho-me apercebido que também o Papa vive num deserto dentro da sua casa. Muitas vezes sozinho na forma como deseja ver uma Igreja Viva, mas cujo calor do conservadorismo e dos ideais rígidos do tradicionalismo não o deixam mostrar esse aperfeiçoamento a que a Quaresma nos convida.

Mas ainda assim, e é notório, não parece desistir, seja pelas palavras que dirige seja nas atitudes que toma. E mostra-nos que a coerência da sua vida é bem próxima daquela de que tanto temos sentido falta diante das notícias e acontecimentos das últimas décadas e levadas até a estes tempos de vacinação contra a covid-19.

“No recolhimento e oração silenciosa, a esperança nos é dada como inspiração e luz interior, que ilumina desafios e opções da nossa missão; por isso mesmo, é fundamental recolher-se para rezar e encontrar, no segredo, o Pai da ternura”, ressalta o Papa. E mesmo que haja muitos ruídos, dentro de casa, dentro de cada um e nas circunstâncias em que nos inserimos, o silêncio do deserto é mais do que urgente para que esta sociedade se reveja e se reconheça no tortuoso caminho por onde passa.

E como o diz este Papa “só”, “apenas com um olhar cujo horizonte esteja transformado pela caridade” é que poderemos verdadeiramente sair deste deserto das nossas casas para voltarmos àquilo que tanto desejamos: a comunidade verdadeira!

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