O dia de todos nós

Mais que nunca a saúde não se resume a cuidados medicinais
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Numa altura em que todos os dias se celebram efemérides e acontecimentos, nomes e causas, nesta quinta-feira, 11 de Fevereiro, celebra-se o Dia Mundial do Doente e, mais do que nunca, o dia de todos nós.

A situação pandémica que vivemos é o patamar que coloca a nossa vulnerabilidade no mesmo nível e mostra como todos, do nada, assumimos essa condição de doentes.

Nunca foi tão oportuno marcar esta efeméride, que nos recorda a fragilidade humana e o quanto o bem da saúde vai faltando de forma tão visível. Traduz-se o momento presente pelo entupimento dos hospitais, pela falta de assistência a tantos outros doentes não-covid e pelos múltiplos problemas que vão, com certeza, surgir da falta de diagnósticos que neste momento estão quase hipotecados.

A celebração do Dia Mundial do Doente, que marca o calendário da vida eclesial, pretende, “este ano, voltar a nossa atenção para a relação de confiança que deve sempre existir entre a pessoa doente e os seus cuidadores”, recorda-o o Bispo da Guarda, apoiado na Mensagem que o Papa enviou ao mundo para a comemoração deste dia.

D.Manuel destaca essa verdade, que muitos querem disfarçar, mas tão evidente, de que “precisamos sempre uns dos outros, porque viajamos no mesmo barco”. Esse orgulho que nos impede a fraternidade “mostra os limites do nosso poder, a nossa impotência, que é transversal a todas as pessoas e a todos os meios, mesmo os meios técnicos mais sofisticados.

Apercebemo-nos, por força das circunstâncias, que o Serviço Nacional de Saúde e dos outros sistemas e subsistemas homólogos, públicos ou privados, de que tanto se fala nestes tempos de pandemia, são frágeis e incapazes de dar todas as respostas de que precisamos neste tempo de catástrofe.

Isto só nos mostra a importância e o verdadeiro valor dos cuidadores que de forma informal, discreta e totalmente disponível, vão colmatando as impotências dos frágeis sistemas instituídos, ainda que vocacionados para acompanhar e cuidar a pessoa doente.

Num tempo em que o distanciamento social é condição de sobrevivência, em que os gestos de afectividade comprometem a saúde pública, “a proximidade é um bálsamo precioso, que dá apoio e consolação a quem sofre na doença”, recorda o Papa Francisco, na mensagem que coloca no título a certeza bíblica “Vós sois todos irmãos”.

Esta certeza e “virtude da pertença comum à família humana” obriga-nos a valorizar a dedicação e o serviço cada vez mais em decréscimo, e a responsabilidade comunitária, em vias de extinção, como bens fundamentais para a sobrevivência humana.

O aspecto relacional é fundamental para uma cura. E hoje, quando tantos doentes hospitalizados estão privados de alguns minutos de afecto, de presença, de toque e palavras de ânimo é ainda mais necessária uma humanização do mundo da saúde, sob a consciência de que esta é parte da cura de muitos enfermos.

Mais que nunca a saúde não se resume a cuidados medicinais de administração de terapêuticas ou diagnósticos. Haverá muitas curas que se farão através de “um pacto baseado na confiança e respeito mútuos, na sinceridade, na disponibilidade, de modo a superar toda e qualquer barreira defensiva, colocar no centro a dignidade da pessoa doente, tutelar o profissionalismo dos agentes de saúde e manter um bom relacionamento com as famílias dos doentes”, como o recorda o Papa Francisco.

 

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