O duelo das eleições

Portugal precisa que a política não seja um “ganho pessoal”
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Os resultados do último acto eleitoral, para além de temas controversas, de acusações que esquecem os problemas reais do País e dos sorrisos “forçados” das derrotas, transmitiram-nos a todos, creio, uma sensação de duelo, em diversos âmbitos, mais do que uma preocupação por um Portugal único e unido. Sete, número ímpar, foi o número dos candidatos, mas os duelos, feitos a par, foram a marca da noite.

O primeiro grande duelo aconteceu entre o vencedor, professor Marcelo Rebelo de Sousa e a sua maior adversária: a abstenção. Esta última foi a que mais falou neste acto eleitoral, mas foi também aquela de menos se falou. Os motivos para ter sido tão manifesta podem ser mais do que justificados pelos efeitos da pandemia e por um certo “medo” de sair à rua, mas pode também ser entendida como um descrédito e indiferença dos portugueses na política e na sua acção governativa, neste caso na figura do Presidente da República, em que muitos já não acreditam.

O actual e reeleito Presidente compreendeu o recado, disse, mas mesmo assim lá levantou o tal “cheque em branco” para gastar por mais cinco anos a governar o País.

O segundo embate foi talvez o mais “badalado”. Entre Ana Gomes e André Ventura escavou-se um fosso tremendo, feito de acusações e uma disputa de valores morais, até, que em nada contribuíram para a consolidação e fortificação da República que desejariam representar. Deste duelo há pelo menos três “golpes” que merecem atenção e preocupação: uma esquerda que não marcou posição, uma extrema-direita que ganhou terreno, sobretudo no Interior, e uma “suposta” demissão anunciada e que veremos se se concretiza.

O terceiro duelo foi o de Marisa Matias e João Ferreira, unidas na disputa de uma esquerda enfraquecida e debilitada, que até onde se tinha “implantado” desde há muito perdeu força e deixou secar raízes.

A Norte o duelo entre Mayan e Vitorino foi o motivo de luta entre os dois candidatos que afirmam a sua presença no domínio do poder político, mas que não vão além de uma percentagem de duas candidaturas que, juntas, ultrapassem os seis pontos percentuais dos votantes.

E assim se cuida de Portugal, com a vitória de vários duelos, a que já vamos estando habituados, porque afinal, também já o sentimos na diferença e nas assimetrias visíveis entre Litoral e Interior.

O preocupante é ver que os discursos de derrota, nenhum deles, se centrou no essencial da nossa realidade nacional. A preocupação egocêntrica de quem vem dizer que assume as responsabilidades da sua derrota, quando a candidatura é feita em nome de uma pessoa, não é mais do que um “entretenimento” de domingo à noite, que aumenta os shares dos canais privados, porque “já cansa” este cultivo das personalidades que dizem querer servir e defender um País.

Na verdade, Portugal precisa de um presidente que o sirva e se preocupe com ele. Portugal precisa que a política não seja um “ganho pessoal”, porque o verdadeiro duelo está, neste momento, entre a nossa sobrevivência e uma pandemia que vai ganhando terreno e literalmente matando negócios, relações e pior que tudo: pessoas!

O momento presente não nos pede duelos. Pede-nos um Portugal único a pensar em si mesmo.

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