O Interior perdeu habitantes, mas ganhou vulnerabilidade

Cláudio Massano Serra*

Enquanto homem do Interior, natural de Manteigas, conheço bem as dificuldades, as limitações, mas também a enorme resiliência das populações que vivem longe dos grandes centros de decisão.  O Interior do País continua demasiadas vezes votado ao abandono: populacional e de investimento. E demasiadas vezes abandono de preocupação estratégica relativamente àquilo que é verdadeiramente essencial para a segurança e para a coesão territorial nacional.

Os números ajudam a perceber a dimensão do problema.  De acordo com os Censos, o distrito da Guarda perdeu 17.965 residentes entre 2011 e 2021, o que representa uma quebra populacional de cerca de 11,1%.  Mas importa perceber uma realidade essencial: perder população não significou perder risco. Pelo contrário.  Hoje temos territórios mais envelhecidos, mais isolados, com maiores dificuldades de mobilidade, maiores tempos de resposta e vulnerabilidades operacionais cada vez mais exigentes.

Na proteção civil, esta realidade é particularmente evidente.  Não é possível continuar a olhar da mesma forma para territórios profundamente distintos.  Não pode existir a mesma abordagem para zonas densamente urbanas do Litoral e para territórios de elevada complexidade operacional, dispersão geográfica e risco acrescido, como acontece em grande parte do Interior do País e, em particular, em zonas como a Serra da Estrela.  A proteção civil não pode continuar a ser pensada exclusivamente a partir de uma lógica uniforme e centralizada.

O Interior exige diferenciação positiva.  Exige planeamento estratégico.  Exige investimento ajustado às características do território.  Exige meios.  Exige incentivos ao voluntariado.  Exige reforço operacional. E exige políticas públicas capazes de compreender que proteger populações em territórios de baixa densidade implica maiores distâncias, maiores dificuldades e maiores exigências de resposta.

Continuar a tratar o Interior e o Litoral da mesma forma é perpetuar desigualdades e fragilizar a segurança das populações.  O Interior não pode continuar a ser recordado apenas nos momentos de tragédia.  Tem de ser integrado de forma permanente nas prioridades estratégicas do País.

Importa também perceber que, enquanto muitos serviços públicos se afastaram progressivamente do Interior, os bombeiros permaneceram.  Continuam presentes.  Continuam próximos.  Continuam disponíveis.  E talvez isso explique porque razão os bombeiros continuam a representar, em muitos territórios, muito mais do que uma força de socorro.  São presença do Estado. São proximidade humana. São segurança. São confiança. E muitas vezes são a primeira e última resposta organizada que resta junto das populações.

Defender o Interior não é apenas uma questão regional.  É defender Portugal inteiro.  E fortalecer a proteção civil no Interior não é apenas uma necessidade operacional.  É uma obrigação estratégica de segurança nacional, coesão territorial e dignidade do País.

Porque o Interior também é Portugal.  E um país que abandona o Interior abandona uma parte da sua identidade, da sua segurança e da sua própria alma.

*Presidente da Direção da Federação de Bombeiros do Distrito da Guarda

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