O País das contradições

Vamos salvar vidas mas podemos escolher morrer
0
314

Será elementar que, depois de na sexta-feira o Parlamento aprovar, na especialidade, a lei da morte clinicamente assistida, tenhamos de considerar os dados que, uma vez mais, nos revelam o País das contradições.

Não é assim tão invulgar nos depararmos com o “diz uma coisa e faz outra”. É a pregação do Frei Tomás, “faz o que ele diz e não o que ele faz”, mas agora numa posição invertida. É que o País está envolvido numa luta pela vida e tudo faz salvaguardar, proteger e cuidar tantas vítimas da infecção pelo coronavírus, que se tem manifestado a arma mortífera do século XXI, mas, contraditoriamente, diz que, afinal, é possível pedir a morte partindo da perícope da sanidade mental para o fazer. Como entender isto? Vamos salvar vidas mas podemos escolher morrer. Haverá contradição maior?

Na verdade, a vida, para além dos discursos morais ou religiosos, é o dom mais precioso que alguém pode receber. Não é pedido, não é comprado, não se aluga nem é motivo de negociação. Mas a lei da eutanásia coloca em causa todos estes princípios e, sobretudo, desafia a constitucionalidade do seu direito que diz que ela é “inviolável”.

Mas, na cultura do relativismo, no tempo desta pós-modernidade, onde tudo tem legitimidade e nada se pode condenar, chegámos a um limite em que a vida passa a ser um bem descartável e de uso consoante as necessidades.

Comprova-se esse princípio, cada vez mais visível, de que “cada um faz o que quer” e também com o bem mais precioso herdado e fruto de um amor fecundante.

Mais se pode observar: o espírito de sacrifício e a aceitação do sofrimento, vivido numa dimensão espiritual, não é hoje referência para a cultura actual. O facilitismo e o estilo “lifestyle” cada vez mais vigente e atractivo, afastaram da nossa concepção da vida humana a capacidade de resistência ao sofrimento, sem sentido, injusto e indesejado, como é óbvio, mas que necessariamente está “anexado” à nossa existência.

A confiança na eficácia e evolução da medicina criaram-nos uma capacidade de nos apoiarmos no desenvolvimento científico, em detrimento da fé e esperança que acompanham a caminhada espiritual da humanidade.

Mas, sendo o objectivo genérico da medicina “prolongar e vida e evitar a morte”, terminar a vida não pode deixar de suscitar uma série de acaloradas discussões no âmbito ético, religioso, médico e jurídico. Alguns entendem-na como um acto de misericórdia do médico, dentro das suas funções de cuidar dos doentes, fazendo com que os que não podem ser salvos possam morrer “bem”, sem a indignidade dum sofrimento atroz, destruidor em vida da sua personalidade.

Nós, os que acreditamos na vida, acreditamos também na esperança e no valor inviolável de um dom que, feito de tantas contradições, de dicotomias, de dilemas e “entroncamentos”, nunca duvida da opção pelo seu fim natural.

Já nos chegam as muitas contradições do agora. Não nos façam pensar naquela que é a central da nossa existência. Escolher entre viver e morrer? Que grande contradição!

Comments are closed.